Vince Gilligan já sabe exatamente para onde pretende levar Pluribus em sua segunda temporada. Isso não significa, porém, que os novos episódios estejam prontos. O criador revelou que toda a estrutura narrativa da próxima fase da série já foi definida, incluindo o caminho geral de cada episódio, mas apenas os dois primeiros roteiros foram efetivamente concluídos até agora.
É uma diferença importante. Em uma produção desse porte, descobrir o que vai acontecer durante toda a temporada costuma ser uma das etapas mais difíceis do processo criativo. A escrita individual dos episódios ainda pode mudar diálogos, cenas, ritmo e até detalhes importantes, mas Gilligan e sua equipe já resolveram o quebra-cabeça maior: sabem onde a história começa, como ela evolui e onde pretende terminar.
Para quem terminou a primeira temporada tentando descobrir como aquela mistura de ficção científica, comportamento coletivo, isolamento e paranoia poderia ficar ainda mais complicada, a resposta provavelmente é simples: Gilligan aparentemente ainda tem bastante munição narrativa guardada.
A história está pronta antes dos roteiros
Segundo Gilligan, os dois primeiros episódios da segunda temporada já estão escritos, enquanto os demais permanecem em diferentes estágios de desenvolvimento. O trabalho mais pesado de organização da temporada, entretanto, já foi concluído.
É justamente aí que existe uma distinção interessante entre ter uma temporada “escrita” e ter uma temporada “resolvida”. O texto final de cada capítulo ainda não existe, mas a equipe já definiu os principais acontecimentos, a progressão dos personagens, as revelações e o caminho que conecta um episódio ao seguinte.
Essa abordagem combina bastante com o histórico de Gilligan. Tanto em Breaking Bad quanto em Better Call Saul, pequenos detalhes aparentemente descartáveis frequentemente se transformavam em peças essenciais muitos episódios depois. Pluribus trabalha com um tipo diferente de história, mas depende da mesma precisão para funcionar. Quando uma narrativa envolve uma inteligência coletiva capaz de absorver praticamente toda a humanidade, personagens resistentes ao fenômeno e uma quantidade crescente de perguntas filosóficas, improvisar completamente o caminho seria uma maneira bastante eficiente de destruir a própria lógica da série.
Gilligan parece ter evitado esse problema. A temporada ainda precisa ser transformada em páginas, cenas e diálogos, mas o mapa já existe.
Rhea Seehorn, curiosamente, ainda não recebeu os novos roteiros. A atriz aparentemente continua tão no escuro quanto boa parte do público sobre os detalhes do que acontecerá com Carol.
O próprio Gilligan comentou que essa relação com os roteiros varia entre os integrantes do elenco. Alguns atores gostam de conhecer antecipadamente o destino dos personagens. Outros preferem descobrir os acontecimentos apenas quando recebem cada novo episódio. Em uma série como Pluribus, essa segunda abordagem talvez tenha até uma vantagem: quando o universo da história é construído sobre dúvida, estranhamento e constantes mudanças de percepção, não saber tudo pode ajudar a preservar exatamente essas sensações durante a interpretação.
E ainda existe uma bomba atômica no meio da história
O grande problema — ou oportunidade, dependendo do grau de insanidade narrativa que você espera de Vince Gilligan — é que a primeira temporada terminou deixando uma peça bastante discreta sobre o tabuleiro: uma bomba atômica.
Carol termina sua jornada exigindo que a mente coletiva alienígena entregue uma arma nuclear. E o detalhe particularmente perturbador é que o pedido é atendido.
Ela e Manousos estão entre os raríssimos seres humanos que permanecem fora da influência do fenômeno que praticamente transformou a humanidade em uma enorme consciência compartilhada. A bomba passa então a funcionar como uma espécie de apólice de seguro absurdamente extrema contra qualquer tentativa futura de forçar os resistentes a se integrarem ao coletivo.
Não é exatamente uma situação que permita começar a segunda temporada fingindo que nada aconteceu.
Gilligan colocou literalmente uma arma nuclear dentro da equação e agora precisa explorar as consequências políticas, psicológicas e estratégicas dessa decisão. Carol possui algo capaz de produzir destruição em uma escala gigantesca, mas enfrenta uma entidade coletiva cuja lógica, prioridades e relação com a própria ideia de indivíduo são completamente diferentes das de uma sociedade humana tradicional.
O interessante é que a bomba talvez seja menos importante como arma do que como símbolo. Até agora, uma das tensões fundamentais de Pluribus é justamente a tentativa de preservar autonomia diante de um sistema que aparentemente oferece unidade absoluta. Carol possuir um mecanismo de destruição total como garantia de sua própria independência cria uma contradição tipicamente Gilligan: para preservar a individualidade, ela agora possui capacidade de causar uma catástrofe coletiva.
E esse tipo de dilema costuma ser muito mais interessante do que simplesmente perguntar se alguém apertará ou não um botão.
Pluribus continua recusando uma explicação simples
Desde sua estreia, a série provocou uma quantidade enorme de interpretações sobre aquilo que realmente estaria tentando discutir. Há quem enxergue uma reflexão sobre inteligência artificial. Outros encontram paralelos com a pandemia, isolamento social, perda, luto, conformismo, identidade ou até a confortável tentação de entregar decisões individuais para alguma entidade aparentemente mais organizada do que nós.
Gilligan, felizmente, não parece interessado em transformar a série em uma equação com apenas uma resposta correta.
Ele já explicou que a ideia central de Pluribus surgiu antes tanto da pandemia quanto da explosão recente da inteligência artificial generativa. Isso enfraquece qualquer interpretação segundo a qual a série teria sido criada especificamente como reação direta a esses acontecimentos, mas não invalida os paralelos percebidos pelo público.
Na verdade, o criador parece gostar justamente dessa multiplicidade.
Uma história pode nascer de uma ideia específica e, ainda assim, adquirir significados completamente diferentes quando encontra seu público. Em Pluribus, isso funciona particularmente bem porque a própria série pergunta constantemente o que significa permanecer indivíduo quando praticamente todos ao redor parecem ter encontrado uma maneira mais fácil de existir juntos.
Talvez seja sobre perda. Talvez seja sobre conformidade. Talvez seja sobre solidão. Talvez seja sobre a facilidade assustadora com que seres humanos podem aceitar sistemas que prometem eliminar conflito, incerteza e responsabilidade.
Provavelmente é um pouco de tudo isso.
Rhea Seehorn finalmente ganhou o reconhecimento que parecia inevitável
A atualização sobre a segunda temporada chega em um momento especialmente importante para Rhea Seehorn. Depois de anos sendo apontada como uma das grandes atuações de Better Call Saul, a atriz conquistou o Emmy por seu trabalho como protagonista de Pluribus.
Para quem acompanhou Kim Wexler durante seis temporadas, existe até uma pequena sensação de justiça tardia nisso. Seehorn já havia demonstrado uma capacidade extraordinária de construir personagens através de silêncio, desconforto e pequenas mudanças de expressão. Em Pluribus, essas características são colocadas no centro absoluto da narrativa.
Carol precisa reagir a acontecimentos que constantemente desafiam qualquer referência normal de realidade. Não basta interpretar medo ou confusão. A personagem precisa transmitir resistência, raiva, vulnerabilidade e desconfiança enquanto tenta compreender uma situação em que praticamente toda a humanidade deixou de funcionar da maneira que conhecemos.
Gilligan também foi reconhecido por seu trabalho de roteiro, reforçando uma parceria criativa que claramente não terminou com Better Call Saul.
E talvez esse seja o ponto mais animador sobre o futuro de Pluribus. A série não parece estar correndo para lançar episódios simplesmente porque existe pressão para entregar rapidamente uma nova temporada. Gilligan e sua equipe estão fazendo exatamente aquilo que uma história desse tipo exige: primeiro descobrir o mecanismo inteiro, depois construir cada peça.
Isso provavelmente significa que a espera continuará.
Mas considerando onde a primeira temporada deixou Carol, Manousos, a mente coletiva e aquela pequena caixa contendo poder suficiente para transformar qualquer negociação em algo consideravelmente mais tenso, talvez seja melhor que Vince Gilligan tenha tempo para organizar tudo.
Porque existe uma diferença enorme entre possuir uma bomba narrativa e saber exatamente quando fazê-la explodir.

