GeekZilla
Tecnologia

CIA operou empresa de criptografia que vendeu sistemas inclusive para o Brasil

Durante décadas a empresa suiça Crypt AG forneceu a governos ao redor do mundo sistemas de comunicação criptografados. A Maioria dos seus mais de 120 clientes nunca suspeitaram que algo estava errado, mas um novo relato do The Washington Post e rede de tv alemã ZDF revela que a Crypto AG na verdade era de propriedade da CIA e da BND (West German Intelligence). Durante décadas as agências interceptaram sem esforço as comunicações, supostamente seguras, de aliados e inimigos.

Mas a Crypto AG não começou como uma operaçao da CIA – a empresa foi criada pelo inventor russo Boris Hagelin. Hagelin fugiu para a Suécia quando os bolcheviques tomaram o poder na Ruissa e depois fugiu para os Estados Unidos quando os nazistas invandiram a Suécia durante a Segunda Guerra Mundial. Nos EUA, ele ajudou a a desenvolver a máquina criptográfica M-209 para as forças americanas. Depois da guerra Hagelin retornou a Europa para reestabelecer a Crypto AG na Suiça. Foi lá que ele desenvolveu versões mais avançadas da criptografia usada na M-209.

De acordo com documentos secretos da CIA obtidos pelo The Post e a ZDF, a CIA ficou preocupada com as máquinas de Hagelin e como elas poderiam permitir que outras nações tornassem suas comunicações totalmente secretas, então eles criaram um plano para “anular” esta tecnologia. Eles sabiam que Hagelin tinha um grande carinho pelos Estados Unidos, então oficiais de inteligência se aproximaram com uma proposta. A CIA pagaria a Crypto AG para manter as suas máquinas mais sofisticadas fora das mãos de nações selecionadas. Isto tornaria mais fácil a interceptação das suas comunicações.

Este acordo serviu bem a CIA durante os anos 50 e 60, mas a agência ficou preocupada com o que aconteceria quando Hagelin se aposentasse ou morresse. Foi então que no final dos anos 60 a CIA e a Crypto AG começaram a cooperar mais de perto. A medida que circuitos integrados substituiram a criptografia mecânica, a CIA projetou um sistema aparentemente seguro que seria fácil de decifrar. Isto formou a base dos principais sistemas da Crypto AG. Em 1969  a CIA e a BND compraram o grupo Crypto AG em segredo, obscurecendo o controle da empresa com a ajuda de uma firma de advocacia em Liechtenstein.

Mais fácil que quebrar uma chave criptografica é comprar a empresa que a criou

A Crypto AG continuou a operar como umas das mais bem sucedidas empresas de comunicação até o final do século 20, funcionários da empresa pensaram que eles estavam fornecendo sistemas de criptografia robustos para clientes como Argentina, Brasil, Irã, Líbia, India e Egito. Entretanto a CIA e a BND eram capazes de ler qualquer correspondência criada com as máquinas da Crypto AG.

Entretanto várias nações começaram a suspeitar da Crypto AG já no final dos anos 80, quando o presidente Ronald Reagan, criticou duramente a Líbia pela forma como esta última cantou vitória em cima de um ataque terrorista a Berlin. Reagan foi tão especifico que o Irã ficou preocupado que os Estados Unidos tivessem comprometido os sistemas da CryptoAG que tanto eles quando a Líbia usavam.

Autoridades iranianas deteram um vendedor da Crypto AG por nove meses. Depois de ser solto, o homem falou para a mídia sobre suas suspeitas que a Crypto AG não era o que parecia ser.

A BND abandonou a empreitada no começo dos anos 90, temendo que a operação fosse revelada. Entretanto, a CIA continuou no controle da Crypto AG até 2018, quando a empresa foi liquidada. Neste ponto várias tecnologias, disponíveis na forma de software, já tinham substituido os sistemas da Crypto AG, mas o seu hardware ainda está em uso em algumas partes do mundo, claro, provavelmente não por muito mais tempo, o que nos remete a velha questão de o ideal é sempre usar software de código aberto quando o assunto é criptografia.