Com tudo o que vem acontecendo esta semana nos Estados Unidos com o furacão Harvey, crises de alimentos em outras partes do mundo, ameaça constante de uma epidemia global, poluição da água e de alimentos, além de políticos insistindo que tudo não passa de um mito, mas querendo poluir ainda mais em nome da prosperidade econômica.
Essas situações fazem parecer o momento apropriado para um certo remake do clássico filme Soylent Green, que foi baseado no livro Make Room! Make Room!, escrito por Harry Harrison. Na verdade, rumores circulam faz anos sobre uma volta ao cenário do filme dos anos 70.
Mas talvez seja melhor que isto não aconteça, vendo o filme novamente estes dias não parece algo realmente necessário.
O filme, para nos situarmos melhor, seguiu a onda do movimento ambiental (além do Hippie) dos anos 70, que teve uma leva de filmes sobre desastres ecológicos, com direito a Godzilla versus o Monstro da Poluição.
Mas nenhum filme da época foi tão detalhado, realista ou relevante quanto o filme de Richard Fleischer, de 1973, se trata de uma obra que é inigualável na sua apresentação do que poderia ser a miséria humana resultante de uma população, além do suportado pelo planeta, aquecimento global e falta de alimentos e energia. O mundo que Fleischer imaginou era quase palpável, por vezes beirando um documentário.
Confira o trailer para ter uma ideia melhor do visual do filme:
Original
Versão Brasileira e versão legendada
Ambientação/Premissa
Tudo acontece na Nova York de 2022, daqui a meros de 5 anos, quando a temperatura nunca cai abaixo de úmidos 32 graus e mais de 20 milhões de pessoas estão sem emprego nos Estados Unidos, pela crise mostrada no filme podemos presumir que o resto do mundo se encontra em situação igual ou ainda pior.
Não existe classe média, simplesmente quem não é do alto escalão se junta aos demais para dormir e para as revoltas por comida.
Este chamado alto escalão, os ricos, moram em arranha-céus que incluem todos os luxos, inclusive jovem mulheres a sua disposição.
Os apartamentos tem ainda amenidades que no mundo de Soylent Green são apenas um sonho, como água quente, eletricidade e luxos como ovos, geleia e a mais rara de todas, carne de verdade.

A força policial, além do governo em si, são mais corruptos do que nunca, alias o governo nada mais é do que um pequeno setor da corporação Soylent – o conglomerado internacional que controla dois terços do suprimento global de comida fabricando bolachas baratas feitas de químicos e matéria vegetal.
Não existem mais árvores, não existem animais, a água é racionada e as cidades tem em média 100 assassinatos por dia.
Mas existe também uma trama geral, além deste cenário desolador, um policial chamado Thorn (Charlton Heston) tenta investigar o assassinato de um rico industrialista (Joseph Cotten) que é membro da mesa de diretores da Soylent Corp.
É uma história que não chama muito a atenção já que você está mais preocupado com o sofrimento geral, mas a investigação acaba servindo ao propósito maior do filme, então não é uma trama de todo perdida. A relação de Thorn com o seu parceiro policial, chamado Sol, é na verdade, um dos pontos altos do filme.
E temos Edward G Robinson em seu último papel, que de uma forma que chega a doer o coração, lembrar de como eram as coisas, pequenos momentos como celebrar um alimento fresco encontrado por Thorn rendem cenas realmente cativantes.

O mundo é praticamente um personagem
Mas o interessante deste filme é o efeito do plano de fundo, em um exemplo do que Harrison chamava do plano de fundo se tornando o destaque ou personagem principal.
A atmosfera do filme é o que irá marcar a sua memória, a neblina de verdade pairando sobre a cidade, a sujeira, a superpopulação e o mundo passando fome, são detalhes que tornam o filme marcante e questionador da realidade.
Então o que você leva do filme não é a trama, mas a imagem geral do mundo onde a trama ocorre. Semanas depois de assistir o filme, você certamente irá se lembrar dos tratores recolhendo rebeldes caídos nas ruas e a linha de produção das bolachas verdes.
Com tudo isto em mente, podemos dizer que depois de quase 45 anos Soylent Green não envelheceu, ele continua a ser tão relevante e perturbador quanto era em 1973, talvez ainda mais do que naquela época frente a situação desoladora enfrentada por muitas pessoas no mundo e por isso lembramos deste filme ao ver a situação no Texas causada pelo furacão Harvey.
Com o aquecimento global atual, poluição, crises e em especial a dos incêndios na Australia vemos que nosso mundo não está tão longe da realidade de Soylent Green.










Justamente por estes detalhes é que talvez um reboot não seja necessário, o filme ainda faz você refletir e olhar a sua volta para o estado atual do nosso mundo.
Mas Soylent Green não foi o único a mostrar o que pode acontecer, apesar da premissa diferente, a série The Last Ship também mostra o colapso da civilização, primeiro por causa de uma epidemia global e na temporada atual, justamente a falta de comida causada pela mutação do vírus que eles tinham acabado de “derrotar” e que faz com que o mundo corra o risco de morrer por falta de comida.
Normalmente somos ligeiramente contra filmes que insistem em usar o fim do mundo como algo para vender ingressos ou mostrar cenas de destruição nas telas, porém, Soylent Green e até The Last Ship são bem diferentes, a sua mensagem é de conscientização e o filme não precisa de qualquer pirotecnia para causar choque ou espanto para quem o assiste.
De certa forma, é uma narrativa mais íntima e ao mesmo tempo aberta no sentido de iniciar o movimento necessário para que o ser humano mude sua forma de ser.

