Hollywood tem uma longa história de pegar conceitos sci-fi fascinantes e transformá-los em algo sem alma. Mickey 17, o novo filme de Bong Joon-ho com Robert Pattinson, é um exemplo perfeito disso. Baseado no livro Mickey7 de Edward Ashton, o filme tenta explorar ideias sobre identidade, morte e imortalidade, mas falha miseravelmente ao tropeçar entre piadas sem graça, ritmo arrastado e uma execução que parece saída de uma produção preguiçosa da Netflix.
A Ressurreição que Não é Ressurreição
A premissa de Mickey 17 gira em torno de um “funcionário descartável” que morre e é substituído por uma cópia com memórias transferidas. O problema? Isso não é ressurreição, é clonagem com memória implantada. O primeiro Mickey morreu, e o que vem depois são apenas cópias achando que são ele. Se o filme queria explorar um conceito sci-fi de continuidade de consciência, poderia ter se inspirado em algo como Altered Carbon, onde a mente é armazenada digitalmente e transferida para novos corpos, garantindo que o mesmo indivíduo continue existindo.
Ou então, que tal o sistema de ressurreição dos Cylons em Battlestar Galactica? Quando um Cylon morre, sua consciência é imediatamente transmitida para um novo corpo idêntico, garantindo verdadeira imortalidade. Mas Mickey 17 ignora qualquer tentativa de coerência e simplesmente trata cada novo clone como se fosse uma continuação legítima do original, sem nunca questionar a perda da consciência anterior. É como Multiplicity, aquele filme do Michael Keaton, mas sem o humor intencional.
ritmo do filme só piora a experiência
Se a premissa já é mal executada, o ritmo do filme só piora a experiência. Bong Joon-ho é um diretor talentoso (Parasita é a prova disso), mas aqui ele parece perdido entre querer fazer um drama existencialista e um filme de ficção científica irônico. O resultado? Um filme que não tem foco e que insiste em inserir piadas que quebram qualquer tentativa de atmosfera séria. Nada nunca parece ter consequências reais, e o impacto emocional é praticamente nulo.
Falando em impacto nulo, temos Mark Ruffalo, que parece ter sido escalado para um papel cômico em um filme que não sabe se quer ser engraçado. Seu personagem é tão exagerado e caricato que chega a parecer que saiu de uma sátira mal escrita. Se o objetivo era criar uma crítica social sutil, falharam miseravelmente.
Paul Verhoeven conseguiu fazer uma sátira militarista brilhante em Starship Troopers, que ao mesmo tempo entregava ação e entretenimento. Mickey 17, por outro lado, quer fazer uma crítica, mas esquece de ser um bom filme no processo.
No final das contas, Mickey 17 desperdiça um conceito interessante em uma história sem peso, sem ritmo e sem a profundidade que acha que tem. Se você quer uma verdadeira exploração sobre identidade e imortalidade, vá assistir Altered Carbon ou Battlestar Galactica. Se quer uma crítica social afiada, Starship Troopers continua sendo um clássico insuperável. Mas se quiser ver um filme que não sabe o que quer ser e que falha em tudo que tenta, Mickey 17 está aí para isso.

