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Starship em Ascensão, SpaceX assume histórico complexo da ULA em Cabo Canaveral

Enquanto os olhos do mundo seguem voltados para Marte, a SpaceX avança de maneira decidida aqui mesmo, na Terra. A próxima etapa dessa jornada começa com a demolição de um dos mais emblemáticos complexos de lançamento da costa leste dos Estados Unidos. O Space Launch Complex 37 (SLC-37), antigo lar dos colossais Delta IV Heavy da United Launch Alliance (ULA), está prestes a ser remodelado por completo para acomodar o ambicioso foguete Starship.

O movimento é mais do que um simples passo logístico — ele representa a consolidação de uma nova fase da indústria aeroespacial, em que a frequência, a escala e a reutilização ditam o ritmo.

Um novo ciclo para um local histórico

Desde os anos 1960, o SLC-37 testemunhou gerações de veículos espaciais cruzarem os céus da Flórida. Com o fim da linha dos Delta IV em abril de 2024, a SpaceX entrou em cena. E não de forma tímida.

Segundo o rascunho da Declaração de Impacto Ambiental (EIS, na sigla em inglês), publicado pela Força Espacial dos EUA, a empresa planeja realizar até 76 lançamentos de Starship por ano a partir deste local. A análise inicial não identificou impactos ambientais, sociais ou históricos significativos — o que abre caminho para o início das obras.

Na prática, isso significa que o emblemático conjunto de estruturas que compõe o SLC-37 — incluindo a torre móvel, torres de para-raios e estruturas de acesso — começará a ser desmontado nos próximos dias. De acordo com fontes internas, a demolição pode começar ainda nesta semana.

Uma nova arquitetura para um novo foguete

No lugar do complexo atual, a SpaceX erguerá dois mastros de integração com cerca de 180 metros de altura. Esses arranha-céus de metal são projetados não apenas para o lançamento, mas também para a recuperação dos estágios reutilizáveis do Starship, incluindo os robustos propulsores Super Heavy.

Além disso, há planos em estudo para a construção de torres exclusivas de captura, estruturas dedicadas a recuperar os estágios na volta à Terra — um método já testado com sucesso no Texas.

O projeto prevê ainda a instalação de uma planta de liquefação de metano, tanques de propelente, sistemas de dilúvio de água e toda a infraestrutura necessária para sustentar o ritmo de voos orbitais.

Uma relação de confiança entre governo e empresa

A transferência de um ativo estratégico como o SLC-37 para a SpaceX é mais uma prova do nível de confiança que a Força Espacial deposita na empresa de Elon Musk. A dependência do governo americano em relação aos foguetes Falcon 9, Falcon Heavy e à cápsula Dragon é evidente — seja para manter a Estação Espacial Internacional operando, seja para colocar satélites militares de alto valor em órbita.

A entrada do Starship nesse cenário representa um salto de escala. Com capacidade de carga significativamente maior, o novo sistema de lançamento poderá viabilizar missões que hoje são apenas teóricas — de entregas globais rápidas para fins militares até projetos lunares e marcianos com a NASA.

Um império de lançamentos

O SLC-37 é apenas uma peça no tabuleiro da expansão da SpaceX. Em paralelo, a empresa está finalizando uma segunda torre Starship no Texas (Pad B, em Starbase), e ampliando a infraestrutura em LC-39A, no Kennedy Space Center — local histórico dos voos Apollo. Lá, uma torre dedicada ao Starship já está de pé, mas faltam ainda a instalação da base de lançamento, o canal de chamas e os tanques criogênicos.

Segundo projeções internas, os voos de teste do Starship a partir de LC-39A podem começar ainda este ano — embora 2026 ou 2027 pareçam prazos mais realistas.

Ao mesmo tempo, a FAA já autorizou 25 lançamentos por ano em Starbase (Texas), enquanto avalia até 44 lançamentos por ano a partir de LC-39A. Somados aos 76 planejados em SLC-37, a SpaceX se prepara para um regime operacional com dezenas (ou eventualmente centenas) de voos por ano.

E não para por aí.

No oeste dos EUA, a SpaceX assumiu também o SLC-6, base anteriormente utilizada pela ULA na Califórnia. Lá, os lançamentos iniciais serão focados em Falcon 9 e Falcon Heavy, mas o local também pode ser adaptado para Starship no futuro.

O futuro é vertical — e frequente

Os números impressionam: nove bases de lançamento em operação nos próximos anos, com torres múltiplas para lançamentos e recuperações simultâneas. Um verdadeiro sistema de logística orbital, com potencial para redefinir o transporte espacial.

O plano de Musk de realizar lançamentos e aterrissagens de múltiplos Starships por dia parece ambicioso, mas segue ganhando infraestrutura para se tornar tecnicamente viável.

Ao contrário da abordagem tradicional de agendar um voo a cada mês, a visão da SpaceX está cada vez mais próxima do modelo aeroportuário — voos frequentes, padronizados, com rápida rotatividade. Para isso, a arquitetura modular do Starship é essencial: motores reutilizáveis, estruturas reforçadas para múltiplos ciclos de voo e sistemas de integração rápidos e robotizados.

Com a autorização ambiental em estágio avançado e a estrutura herdada da ULA prestes a ser desmontada, a SpaceX está prestes a transformar o SLC-37 em um centro nervoso de sua nova geração de lançamentos orbitais.

É uma mudança que vai muito além da engenharia. Trata-se de uma nova filosofia de acesso ao espaço, onde a escala importa, a velocidade é vital e o céu não é mais o limite — apenas o início.