CINEMA / GAMES / FICÇÃO CIENTÍFICA
A Paramount quer a cidade — não necessariamente a jornada de V.
Night City está a caminho do cinema, mas a história que você jogou em Cyberpunk 2077 não será simplesmente reencenada com atores. A CD Projekt Red confirmou que trabalha com a Paramount Pictures em uma produção live-action ambientada no universo do RPG, enquanto seu co-CEO Michał Nowakowski afirmou em outubro de 2026 que a intenção é contar uma narrativa própria, não adaptar o enredo do jogo cena por cena. A notícia desmonta uma expectativa fácil: ainda não há confirmação de que V ou Johnny Silverhand serão protagonistas do filme.
O projeto chegou ao noticiário em 8 de outubro, com Lorenzo di Bonaventura, associado a produções como Transformers, na equipe de produção junto à desenvolvedora polonesa. Dias depois, Nowakowski explicou que o acordo anterior com a Anonymous Content, anunciado em 2023 para um projeto de imagem real, havia chegado ao fim. A parceria com a Paramount representa uma nova abordagem. Ainda não existem elenco, diretor, roteirista ou data de estreia divulgados, portanto não é correto apresentar imagens de videogame como cenas de uma produção cinematográfica já filmada.
O filme: confirmado versus desconhecido
Paramount, CD Projekt Red, produção de Lorenzo di Bonaventura e história no universo Cyberpunk.
Diretor, roteiro, elenco, data, participação de Johnny Silverhand e trailer próprio.
Essa decisão criativa faz mais sentido quando se observa a estrutura de Cyberpunk 2077. O jogo acompanha V, mercenário que tenta sobreviver a conflitos entre corporações, criminosos e uma tecnologia capaz de comprometer sua própria identidade. O público pode construir versões diferentes do personagem, escolher caminhos narrativos e reagir de maneiras distintas aos acontecimentos. Um filme que adotasse uma trajetória específica precisaria transformar uma experiência aberta em uma única versão oficial, talvez contrariando parte da relação que os jogadores criaram com a obra.
Night City é maior do que qualquer protagonista
Night City, por outro lado, oferece um cenário muito maior do que seu protagonista. A cidade funciona como uma máquina de produzir desigualdade: arranha-céus controlados por conglomerados convivem com bairros onde modificações corporais, violência e pequenos negócios disputam espaço. A tecnologia está por toda parte, mas a promessa de liberdade frequentemente serve para vender novas formas de dependência. Essas ideias podem sustentar um thriller policial, uma história de espionagem corporativa ou um drama de sobrevivência sem reproduzir os eventos de V.

O universo também tem uma tradição transmídia que ajuda a entender a estratégia. Cyberpunk: Edgerunners provou que personagens novos conseguem oferecer uma experiência reconhecível dentro de Night City, usando o mesmo imaginário de implantes, ambição e vidas descartáveis. A série animada não precisou escalar uma versão alternativa de V para conquistar sua identidade. Isso não significa que o futuro filme deva imitá-la; significa que a cidade e seus conflitos podem ser mais importantes do que trazer de volta um rosto conhecido.
Uma adaptação cinematográfica enfrenta, contudo, um risco particular: confundir o visual da franquia com sua substância. Letreiros luminosos, motocicletas, braços metálicos e apartamentos futuristas rendem imagens marcantes, mas não bastam para criar um bom filme. O gênero cyberpunk nasceu de questões sobre poder econômico, concentração tecnológica e transformação dos corpos em mercadorias. Se a Paramount quiser aproveitar o universo de verdade, precisará construir personagens que sintam essas contradições em suas decisões, e não apenas passeiem por cenários impressionantes.
O envolvimento direto da CD Projekt Red pode ajudar a preservar elementos essenciais do mundo, embora não garanta qualidade. Games e filmes trabalham com formas diferentes de contar histórias: o jogador investiga, experimenta e passa horas convivendo com o ambiente; no cinema, cada detalhe precisa ser escolhido para sustentar um arco mais curto. A equipe deverá decidir quais corporações, bairros e conflitos merecem atenção, evitando transformar Night City em uma lista de referências visuais para fãs reconhecerem.
Por que Keanu Reeves não está confirmado
A participação de Keanu Reeves permanece uma pergunta popular porque Johnny Silverhand é um dos elementos mais memoráveis do videogame. Mas o estúdio não anunciou o ator no elenco nem confirmou a presença do personagem. O mesmo vale para outras figuras consagradas. Há uma diferença importante entre ‘seria interessante ver Johnny’ e ‘Johnny está confirmado’. A primeira frase é uma possibilidade editorial; a segunda exigiria documentação que não existe até o momento.
Cyberpunk 2077 — trailer cinematográfico do jogo
Vídeo de arquivo do videogame, não é trailer do filme em desenvolvimento.
O projeto também não deve ser confundido com um trailer cinematográfico divulgado recentemente. As imagens oficiais de Cyberpunk 2077, incluindo o famoso vídeo de 2019 com Johnny Silverhand, pertencem à divulgação do jogo. Elas ajudam a apresentar Night City a quem nunca entrou nesse universo, mas não mostram cenas filmadas pela Paramount. Até que um teaser próprio seja lançado, chamar qualquer vídeo antigo de trailer do filme seria enganar o leitor.
O desafio comercial é evidente: o nome Cyberpunk 2077 já possui reconhecimento mundial, mas parte desse público espera justamente os personagens e os acontecimentos que viveu. Um filme original poderá decepcionar quem deseja uma tradução literal e, ao mesmo tempo, libertar a equipe para construir seu próprio suspense. A escolha lembra uma pergunta central para qualquer adaptação de videogame: o que precisa permanecer igual para que a obra continue sendo reconhecível?
Veredicto GeekZilla
Talvez a resposta esteja menos em uma missão específica e mais na regra moral de Night City: até a tecnologia mais extraordinária pode se tornar instrumento de dominação quando poucos controlam seus benefícios. É nesse ponto que a ficção científica dialoga com discussões atuais sobre vigilância, trabalho e corporações. O filme terá a chance de explorar esses temas a partir de outra perspectiva, enquanto V e Johnny permanecem como parte de um universo maior.
Por enquanto, a Paramount possui um projeto em desenvolvimento, uma produtora experiente e a participação da CD Projekt Red, mas não um filme pronto para lançamento. A decisão de criar uma narrativa própria é o dado mais importante até aqui. Se o roteiro compreender que a verdadeira protagonista de Cyberpunk talvez seja Night City, a adaptação terá condições de funcionar sem copiar a campanha do jogo. Caso contrário, será apenas mais uma paisagem de néon procurando uma história.

