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Star Trek perdeu a alma: Jonathan Frakes insiste em um otimismo que ignora o que os fãs realmente estão vendo

Existe um momento curioso na história de grandes franquias de ficção científica: aquele ponto em que quem está dentro da máquina de produção parece viver em um universo completamente diferente do público que acompanha essas histórias há décadas. A recente entrevista de Jonathan Frakes sobre Star Trek: Starfleet Academy escancara exatamente esse fenômeno.

Frakes, um nome histórico dentro da franquia — diretor de episódios marcantes e também dos filmes First Contact e Insurrection — voltou para dirigir o nono episódio da primeira temporada da nova série. Em entrevista ao pessoal do ScreenRant, ele descreve o episódio como uma mistura empolgante de ação e comédia, elogia o elenco, celebra os efeitos visuais e reafirma que continua sendo um “otimista eterno” quando o assunto é Star Trek.

O problema é que esse otimismo soa cada vez mais desconectado da realidade que grande parte dos fãs enxerga hoje.

Starfleet Academy é o retrato da crise criativa de Star Trek

O episódio dirigido por Frakes faz parte da reta final da temporada de Star Trek: Starfleet Academy, série ambientada na controversa linha do tempo introduzida por Star Trek: Discovery. E é justamente aí que está uma das maiores fraturas modernas da franquia.

Desde a estreia de Discovery, Star Trek entrou em uma fase que muitos fãs consideram um afastamento radical da identidade que definiu a série por décadas. A nova linha narrativa trouxe mudanças profundas na cronologia, conceitos que fragmentaram a lógica do universo e decisões criativas que frequentemente parecem ignorar a própria base filosófica da saga criada por Gene Roddenberry.

A chamada “Burn”, por exemplo, foi um dos momentos mais controversos dessa nova fase. A ideia de que uma catástrofe misteriosa poderia destruir praticamente toda a infraestrutura de viagem warp da galáxia foi tratada como um grande evento épico. Na prática, muitos espectadores viram apenas mais um elemento que desmontava o senso de continuidade do universo.

Em vez de expandir o imaginário de Star Trek com conceitos científicos provocativos — algo que sempre foi a marca registrada da franquia — as séries recentes parecem cada vez mais interessadas em espetáculo visual e conflitos melodramáticos.

É ficção científica sem o “science” e, muitas vezes, sem a profundidade filosófica que sempre foi o coração da saga.

Jonathan Frakes parece ignorar o problema

Na entrevista, Frakes elogia o roteiro da temporada e afirma que a série foi “muito bem planejada e estruturada”. Ele também destaca o enorme investimento visual da produção, mencionando que o set de Starfleet Academy é um dos maiores já construídos para Star Trek.

Essa fala resume bem o paradoxo atual da franquia: visualmente ambiciosa, mas narrativamente vazia.

Os efeitos visuais modernos realmente permitem cenas que seriam impossíveis nos anos 90. No episódio dirigido por Frakes, por exemplo, a nave USS Athena realiza uma manobra dramática entrando na atmosfera de um planeta para resgatar cadetes — um tipo de espetáculo que as produções antigas não tinham tecnologia para executar.

Mas o problema nunca foi a falta de efeitos especiais.

Star Trek se tornou uma das maiores franquias da história da televisão justamente quando tinha recursos limitados. O que sustentava aquelas histórias eram ideias provocativas, dilemas morais e episódios que funcionavam quase como ensaios filosóficos sobre a condição humana.

Comparado a isso, muitas produções recentes parecem apenas episódios de ação com uniformes da Federação.

A obsessão com “espetáculo” substituiu a ficção científica

Um dos momentos mais reveladores da entrevista acontece quando Frakes fala sobre a cena final do episódio, que mostra praticamente toda a Federação cercada por minas Omega-47, criando uma imagem gigantesca que cobre regiões imensas da galáxia.

Ele comenta que a produção quis “ir o maior possível”.

E essa frase resume perfeitamente o problema atual de Star Trek.

episódios as vezes

era ambientados em uma única sala, explorando ideias complexas sobre política, ética e humanidade.

Durante décadas, a franquia construiu algumas das histórias mais memoráveis da ficção científica justamente quando focava no oposto: conceitos pequenos, dilemas morais e conflitos ideológicos. Episódios clássicos de The Next Generation ou Deep Space Nine muitas vezes aconteciam em uma única sala, explorando ideias complexas sobre política, ética e humanidade.

Hoje, a prioridade parece ser fazer tudo maior, mais barulhento e mais visual.

O resultado é um tipo de ficção científica que impressiona os olhos, mas raramente desafia o pensamento.

O problema da era Kurtzman

Grande parte dessa transformação aconteceu sob a liderança criativa de Alex Kurtzman, responsável pela atual fase televisiva da franquia.

Kurtzman herdou um universo com mais de cinquenta anos de história e uma base de fãs profundamente apaixonada. Em vez de aprofundar os temas que fizeram Star Trek se tornar um fenômeno cultural, as produções recentes frequentemente parecem interessadas em reformular a franquia para um tipo de narrativa mais genérica.

Personagens menos memoráveis, conflitos mais superficiais e uma dependência enorme de drama pessoal substituíram os debates filosóficos que sempre foram a alma da série.

Starfleet Academy surge exatamente nesse contexto: uma produção que tenta transformar Star Trek em algo próximo de um drama juvenil ambientado em um cenário futurista.

O contraste com o sucesso de Picard temporada 3

Curiosamente, a própria franquia mostrou recentemente qual é o caminho que ainda funciona. A terceira temporada de Star Trek: Picard foi amplamente celebrada justamente por recuperar elementos que haviam sido deixados de lado nas produções anteriores.

O retorno dos personagens de The Next Generation trouxe algo que muitos fãs sentiam falta havia anos: histórias centradas em personagens fortes, interpretações sólidas e uma narrativa que respeitava o espírito clássico de Star Trek.

Não se tratava apenas de nostalgia. Era uma combinação de roteiro consistente, atuação convincente e um entendimento claro do que torna Star Trek especial.

Durante aquele breve momento, a franquia parecia ter recuperado sua identidade.

Infelizmente, Starfleet Academy parece seguir na direção oposta.

O eterno otimismo de Frakes

No final da entrevista, Jonathan Frakes reafirma sua postura de “otimista eterno” sobre Star Trek. Ele diz que ignora críticas e acredita que muitas das produções atuais podem ser reavaliadas positivamente no futuro.

É uma posição compreensível vindo de alguém profundamente envolvido na franquia há décadas. Frakes não é apenas um diretor ou ator; ele é parte da própria história de Star Trek.

Mas há uma diferença entre otimismo e negação.

Quando uma parte significativa da base de fãs demonstra frustração com a direção criativa de uma franquia, isso não pode ser reduzido simplesmente a trolls ou haters. Muitas vezes são espectadores que cresceram com essas histórias e reconhecem quando algo essencial se perdeu no caminho.

Star Trek precisa reencontrar seu propósito

Star Trek sempre foi mais do que uma série sobre naves espaciais e batalhas cósmicas. Era uma visão de futuro baseada em curiosidade científica, esperança e reflexão sobre o destino da humanidade.

Quando a franquia funciona, ela não apenas entretém — ela provoca pensamento.

Se Starfleet Academy realmente quiser representar o futuro de Star Trek, então o desafio não será produzir cenas maiores ou efeitos visuais mais impressionantes. O verdadeiro teste será recuperar aquilo que transformou a saga em um fenômeno cultural por mais de meio século.

Ideias.

Porque sem elas, nem a maior nave da Frota Estelar consegue sustentar a jornada.