Mais de três décadas após Arnold Schwarzenegger correr por sua vida no game show mais mortal do cinema, O Concorrente (The Running Man) retorna às telonas com uma abordagem radicalmente diferente. Dirigido por Edgar Wright e estrelado por Glen Powell, a nova versão do clássico de Stephen King promete não apenas ação de tirar o fôlego, mas uma crítica feroz às engrenagens do entretenimento distópico. O resultado é um thriller pulsante, brutal e surpreendentemente atual.
O enredo: sobrevivência em um mundo onde tudo é espetáculo
Nesta nova adaptação, Glen Powell interpreta Ben Richards, um trabalhador da construção civil desempregado em uma América do futuro controlada por uma entidade de mídia chamada The Network. Desesperado por dinheiro para comprar remédios para sua filha, Richards se vê envolvido em um reality show extremo — The Running Man — onde os participantes são caçados em tempo real por assassinos profissionais chamados Hunters.
O programa é simples: sobreviva 30 dias enquanto o mundo inteiro torce por sua morte — e acumule prêmios em dinheiro a cada minuto vivo. A audiência é sedenta por violência, e a produção manipula todos os aspectos do jogo para garantir espetáculo. O resultado é uma caçada implacável transmitida para milhões em tempo real. Tudo, é claro, com comentários ao vivo de Bobby T, o apresentador carismático vivido por Colman Domingo.
Comparando com o clássico de 1987: menos espetáculo, mais tensão social
Enquanto a versão de 1987 com Schwarzenegger transformava Richards em um herói de ação musculoso em um cenário de arena, a nova leitura é muito mais fiel ao livro original. Aqui, a perseguição ocorre nas ruas, em cidades reais e espaços abertos — ampliando a sensação de vulnerabilidade e crítica social. Wright resgata o espírito original de Stephen King, transformando o protagonista em um homem comum tragado por um sistema impiedoso.
O filme original apostava em explosões e combates corpo a corpo. Já esta versão aposta no desgaste psicológico, no medo constante e na manipulação midiática. A crítica à espetacularização da violência e à indiferença do público é mais aguda, mais próxima da nossa realidade atual de reality shows extremos e redes sociais sedentas por cliques.
Ben Richards: o anti-herói vulnerável interpretado por Glen Powell
Diferente dos papéis charmosos e descontraídos que marcaram sua carreira, Glen Powell mergulha em um personagem sombrio, desesperado e constantemente ferido. Segundo o próprio ator, essa foi sua atuação mais física até agora. Richards apanha, corre, sangra, desaba — e essa entrega física foi construída com ajuda de conselhos de ninguém menos que Tom Cruise, com quem Powell trabalhou em Top Gun: Maverick.
O resultado é um protagonista que não inspira apenas força, mas empatia. O espectador se identifica com sua dor, sua luta por justiça e, acima de tudo, sua recusa em se render ao sistema. Richards não é um herói nato — é um homem empurrado ao limite.
O espetáculo macabro por trás das câmeras
Wright constrói o universo de The Running Man com referências visuais aos filmes distópicos dos anos 80, como Escape From New York e Rollerball. O design de produção mistura ruínas industriais, tecnologia retrô-futurista e ambientes urbanos opressivos. A estética remete a um futuro alternativo onde a mídia controla todas as dimensões da vida social.
O apresentador Bobby T, vivido por Colman Domingo, rouba a cena com seu visual extravagante, inspirado em figuras como Jerry Springer e com figurinos assinados pela Jacob & Co. Já Josh Brolin, como o executivo Dan Killian, representa o arquétipo do manipulador absoluto — um homem que transforma sofrimento em audiência e audiência em lucro.
O elenco de vilões inclui Lee Pace como McCone, um assassino mascarado e performático, e Karl Glusman, treinado por membros da SAS britânica para interpretar um dos Hunters. A caçada é estilizada, mas nunca gratuita — sempre acompanhada pela frieza do sistema que a legitima.
Esses antagonistas funcionam não apenas como obstáculos físicos, mas como extensões da lógica perversa que rege o mundo do filme: se não houver sangue, não há audiência. Se não houver espetáculo, não há relevância.
Edgar Wright em sua fase mais sombria — e ambiciosa
Conhecido por comédias estilizadas como Scott Pilgrim e Baby Driver, Edgar Wright abraça aqui sua veia mais ácida e politizada. A produção é expansiva: filmada no Reino Unido, Escócia e até Bulgária, o longa tem estrutura de road movie distópico, com cada cenário revelando novas camadas da sociedade que consome — e celebra — o sofrimento alheio.
O roteiro, coescrito com Michael Bacall, é mais denso que suas obras anteriores, refletindo um amadurecimento do diretor. Wright também homenageia o filme de 1987 com easter eggs discretos, após receber pessoalmente a bênção de Schwarzenegger em uma chamada de vídeo emocionante.
Embora ambientado em um futuro não especificado, o novo Running Man espelha com precisão assustadora o presente. A obsessão por reality shows, a mercantilização da tragédia e a desumanização coletiva são elementos que já existem, apenas amplificados no universo do filme.
Ao final, o espectador não apenas torce pela fuga de Richards, mas se pergunta: o que diferencia nosso mundo real daquele da ficção? Talvez muito menos do que gostaríamos de admitir.
The Running Man de 2025 não tenta substituir o clássico dos anos 80 — ele o recontextualiza, levando a crítica social de King a um novo patamar. Com uma direção firme, atuações intensas e uma mensagem afiada, o filme se posiciona como um dos melhores thrillers distópicos da década. Glen Powell entrega sua performance mais brutal, e Edgar Wright prova que sabe correr muito bem fora da zona de conforto.


