O mundo tokusatsu perdeu um de seus nomes mais importantes para o público brasileiro. Morreu aos 64 anos o ator japonês Hikaru Kurosaki, eternizado como o protagonista de O Fantástico Jaspion, série que marcou profundamente uma geração de fãs no Brasil.
A informação foi divulgada por Masaki Sekiguchi, amigo do artista, em uma publicação nas redes sociais. Segundo as informações divulgadas até agora, a causa da morte não foi informada.
Kurosaki vivia há anos na cidade de Motobu, em Okinawa, no Japão, onde passou a trabalhar como instrutor de mergulho depois de se afastar da carreira artística.
O herói que virou lenda no Brasil
Para muita gente no Brasil, Hikaru Kurosaki não era apenas um ator japonês de uma série dos anos 1980. Ele era Jaspion.
O Fantástico Jaspion estreou originalmente no Japão em 1985, produzido pela Toei Company, e se tornou um fenômeno entre os fãs de tokusatsu. No Brasil, a série ganhou força especialmente na televisão aberta, entrando no imaginário de crianças que cresceram vendo heróis metálicos, monstros gigantes, naves espaciais e robôs colossais em plena tarde.
A premissa era puro combustível para a imaginação: Jaspion, um órfão criado pelo profeta Edin, era convocado para enfrentar a ameaça de Satan Goss e proteger a paz na Via Láctea.
Com sua armadura brilhante, a nave Daileon, batalhas contra monstros e uma trilha sonora inesquecível, a série se transformou em um dos maiores símbolos da cultura pop japonesa no Brasil.
Mais do que nostalgia
É fácil tratar Jaspion apenas como nostalgia, mas isso diminui o tamanho do impacto que a série teve por aqui.
Antes da internet, antes do streaming e antes da cultura geek virar mercado dominante, produções como Jaspion abriram portas para uma geração inteira conhecer o universo dos tokusatsus. Ao lado de nomes como Changeman, Jiraiya, Flashman, Jiban e Black Kamen Rider, Jaspion ajudou a criar uma ponte cultural entre o Japão e o público brasileiro.
Hikaru Kurosaki carregava no rosto e no corpo essa memória afetiva. Para muitos fãs, ele representava uma época em que a ficção científica japonesa parecia gigante, estranha, colorida e absolutamente fascinante.
A carreira de Hikaru Kurosaki
Nascido em Osaka, no Japão, em 31 de janeiro de 1962, Hikaru Kurosaki iniciou sua trajetória artística como dublê no fim dos anos 1970.
Antes de vestir a armadura de Jaspion, ele participou de produções importantes da televisão japonesa, incluindo a versão japonesa de Homem-Aranha, Battle Fever J e Denshi Sentai Denjiman. Seu trabalho em produções de ação e efeitos especiais ajudou a abrir caminho para sua escalação como protagonista de O Fantástico Jaspion.
Depois do sucesso da série, Kurosaki também investiu na carreira musical e lançou trabalhos ligados à popularidade conquistada com o personagem.
Com o passar dos anos, no entanto, ele decidiu deixar os holofotes. Após um breve retorno à atuação nos anos 1990, afastou-se da televisão e passou por outras atividades profissionais, incluindo trabalho com motocicletas, administração de lanchonete e, posteriormente, mergulho.
Um ícone para os fãs de tokusatsu
O termo tokusatsu se refere às produções japonesas de efeitos especiais, geralmente associadas a heróis, monstros, robôs, transformações, naves e batalhas coreografadas. Para o público brasileiro, esse gênero teve um peso enorme na formação da cultura geek nacional.
Jaspion foi uma das portas de entrada mais fortes para esse universo.
Mesmo décadas depois, a imagem de Kurosaki como o herói espacial continuou viva em reprises, DVDs, eventos, memes, coleções, camisetas, comunidades de fãs e conversas nostálgicas sobre a televisão dos anos 1980 e 1990.
Não é exagero dizer que muitos brasileiros conheceram a estética dos heróis japoneses por causa dele.
A despedida de um herói da infância
A morte de Hikaru Kurosaki atinge uma camada muito específica da memória afetiva brasileira.
Para quem cresceu assistindo O Fantástico Jaspion, a notícia não soa apenas como a perda de um ator distante. Ela parece a despedida de uma parte da infância: aquela tarde em frente à televisão, o susto com Satan Goss, a empolgação com Daileon, a música grudada na cabeça e a sensação de que o universo inteiro cabia dentro de um episódio de 20 e poucos minutos.
Heróis de infância envelhecem junto com a gente. E quando eles partem, a lembrança fica ainda mais forte.
GeekZilla opina
Hikaru Kurosaki talvez nunca tenha buscado viver para sempre à sombra de Jaspion. Pelo contrário, sua trajetória mostra alguém que escolheu uma vida mais reservada, longe da máquina de fama que costuma prender artistas ao passado.
Mas há personagens que escapam do controle de qualquer carreira. Jaspion foi um deles.
No Brasil, Kurosaki virou símbolo de uma geração que aprendeu a amar ficção científica japonesa antes mesmo de saber explicar o que era tokusatsu. Ele foi rosto, corpo e energia de uma série que parecia impossível: espacial, dramática, exagerada, estranha e maravilhosa.
A cultura pop é feita dessas marcas. Algumas são sofisticadas. Outras são barulhentas, coloridas e cheias de monstros de borracha. Mas todas importam quando deixam memória.
Hikaru Kurosaki partiu, mas Jaspion continua onde sempre esteve para os fãs: no lugar dos heróis que acenderam a imaginação antes da vida adulta tentar desligar tudo.
Descanse em paz, Hikaru Kurosaki. Para muita gente no Brasil, o brilho da armadura de Jaspion nunca vai apagar.



