Em um universo onde as palavras “Star Wars“ costumavam causar arrepios, hoje elas provocam suspiros — de cansaço. E depois de uma década orbitando a inércia criativa, Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm, finalmente fez o que muitos julgavam impossível: admitiu que o legado de George Lucas é, sim, insubstituível.
Durante o Star Wars Celebration 2025, Kennedy confessou que, desde que a Disney engoliu a franquia em 2012, encontrar um caminho legítimo tem sido um “enorme desafio”. A frase seria mais eficaz se não soasse como a leitura tardia de um obituário. O mais irônico? Ela fala isso como se o público não tivesse percebido esse “desafio” desde The Last Jedi, o filme que dividiu a base de fãs como nenhum outro — e forçou The Rise of Skywalker a se contorcer em desculpas estéticas e narrativas.
Segundo Kennedy, a Lucasfilm decidiu explorar personagens novos no streaming, onde nasceu The Mandalorian, uma das poucas fagulhas criativas dessa era pós-Lucas. Mas, ao concluir o que chamou de “a história que George criou”, a própria admite que não sabe bem o que vem depois. O que soa como um modo polido de dizer: estamos perdidos na galáxia.
O catálogo Disney+ se transformou numa fábrica de conteúdo morno. Desde 2019, foram 10 temporadas de séries live-action, algumas notáveis (Andor), outras completamente esquecíveis (The Book of Boba Fett). É o paradoxo da abundância: há tanto Star Wars que já não se sabe mais o que é essencial e o que é apenas ruído.
Kennedy jura que há um novo “momentum” — citando filmes como The Mandalorian and Grogu e Star Wars: Starfighter. Elogia os “grandes cineastas” envolvidos e diz ter “um real senso do que o futuro guarda”. A pergunta permanece: esse senso existe mesmo ou é só mais uma tentativa de mascarar o vazio?
Fugindo da Responsabilidade com o Legado
Em outro momento da entrevista, Kennedy tenta justificar o caos narrativo afirmando que Star Wars nunca foi sobre personagens específicos. Sim, leia de novo. A presidente da Lucasfilm disse que a saga que nos deu Anakin, Luke, Leia, Han, Vader e Yoda nunca se centrou em personagens.
A verdade? Essa tentativa de despersonificar o que sempre foi um drama familiar e mítico apenas escancara a falta de norte. Kennedy quer um universo onde nada se conecta, mas onde ainda assim tudo faça sentido. Um paradoxo criativo que não funciona nem em fanfic.
E quando questionada sobre a enxurrada de rumores sobre filmes cancelados — como Rogue Squadron ou o projeto de Taika Waititi — ela admite: “nós simplesmente não respondemos.” Talvez porque não haja resposta que justifique a falta de planejamento visível.
Sob a batuta de George Lucas, a saga era clara, mesmo com todos os tropeços. A trilogia prelúdio pode ter abusado do chroma key e sofrido com atuações robóticas, mas tinha um plano. Lucas sabia para onde ia, mesmo que o caminho fosse tortuoso. O resultado foi uma história completa — amada ou odiada, mas inegavelmente coesa.
A trilogia Disney, por outro lado, foi um exercício de improviso corporativo. Cada episódio parecia rejeitar o anterior. Deixaram J.J. Abrams montar o quebra-cabeça, quebraram as peças com Rian Johnson, e depois tentaram colar tudo com fita isolante em Rise of Skywalker.
Hoje, Kennedy fala de futuro enquanto ignora os escombros do presente. Cita Rey (Daisy Ridley) como a esperança de uma nova fase, mesmo sem dar qualquer atualização real. Os filmes de James Mangold, Dave Filoni e até a trilogia de Simon Kinberg continuam no limbo criativo, onde tudo pode acontecer — o que geralmente significa que nada vai acontecer.
A Questão Que Não Quer Calar: A Disney Está Arruinando Star Wars?
Acredito que podemos dizer que estão perto, bem perto de fazer isso totalmente. A produção desenfreada para o Disney+ transformou uma saga mítica em um parque temático de narrativas. O “grande desafio” citado por Kennedy não é apenas encontrar uma nova direção: é reconquistar a confiança de uma base que, em parte, já se desligou.
O que antes era raro e especial virou sob demanda. E o resultado é previsível: desgaste. Não por cansaço do público, mas pela ausência de propósito. Lucas falava sobre mitologia, tragédia e redenção. A era Disney fala sobre volume, métricas e algoritmos.
A grande ironia? Kennedy diz confiar em “grandes contadores de histórias”. Mas esquece que o maior deles — aquele que criou tudo — foi afastado do processo desde o começo.
E enquanto Star Wars não voltar a contar histórias com alma, direção e risco, tudo o que nos resta são boas lembranças… e baldes de pipoca com o rosto do Vader.

