Por anos, a história da Intel parecia um roteiro previsível de queda lenta. Um gigante que perdeu timing, perdeu protagonismo e viu concorrentes mais ágeis roubarem seu espaço — especialmente em um dos momentos mais críticos da indústria: a explosão da inteligência artificial. Mas 2026 começou com um plot twist digno da era dot-com. A Intel ultrapassou novamente a marca de US$ 300 bilhões em valor de mercado, algo que não acontecia desde o auge da bolha tecnológica no início dos anos 2000.
Não é apenas um número. É um sinal claro de que a empresa virou o jogo — ou pelo menos está tentando com força.
Do fundo do poço à recuperação agressiva
Para entender o peso desse momento, é preciso lembrar o quão feia foi a queda. No pós-pandemia, a Intel entrou em uma sequência de decisões erradas, atrasos tecnológicos e apostas que demoraram demais para dar retorno. Enquanto isso, a AMD avançava com agressividade e, em 2022, fez história ao ultrapassar a Intel em valor de mercado pela primeira vez.
A situação piorou em 2024, quando a Intel viu seu valuation cair para menos de US$ 100 bilhões, algo impensável para quem dominava o setor por décadas. O mercado reagia mal aos investimentos pesados em foundry que ainda não entregavam resultado, enquanto produtos como a linha Raptor Lake não conseguiam empolgar.
Por um momento, o cenário era tão crítico que até rumores de aquisição por parte da Qualcomm começaram a circular. Sim, a Intel — a Intel — virando alvo.
A virada começa no comando
O ponto de inflexão veio em 2025, com a chegada de Lip-Bu Tan como CEO, substituindo Pat Gelsinger. A mudança não foi apenas simbólica. O mercado reagiu imediatamente, especialmente após o governo dos Estados Unidos anunciar a compra de uma participação de 10% na empresa. Isso trouxe algo que a Intel vinha perdendo: confiança.
Desde então, o movimento foi quase brutal. As ações da empresa praticamente triplicaram desde agosto do ano passado, impulsionando o valor de mercado para cerca de US$ 305 bilhões. É o maior nível desde agosto de 2000, quando a Intel chegou a ultrapassar os US$ 500 bilhões no auge da bolha da internet.
Mas diferente daquela época, o jogo agora é outro.
A corrida da IA finalmente começou para a Intel
Um dos maiores erros estratégicos da Intel foi ter subestimado a velocidade da revolução da IA. Enquanto gigantes como NVIDIA disparavam e consolidavam domínio, a Intel parecia travada em ciclos antigos, tentando resolver problemas estruturais internos.
Isso mudou.
A empresa começou a fechar acordos relevantes e reposicionar sua atuação no ecossistema de inteligência artificial. Um dos movimentos mais importantes foi a parceria com o Google, garantindo o uso contínuo de plataformas Xeon para cargas de trabalho em nuvem e IA. Não é só sobre vender chip — é sobre estar no centro da infraestrutura que sustenta o futuro digital.
TeraFab: o fator Elon Musk que mudou o jogo
Mas o verdadeiro impulso veio de um lugar que mistura ambição absurda com escala quase impossível: o projeto TeraFab, liderado por Elon Musk.
A proposta é simples no papel e insana na execução: criar uma infraestrutura capaz de produzir 1 terawatt por ano de capacidade computacional. Isso significa chips para IA, robotáxis, robótica avançada e até sistemas espaciais.
A entrada da Intel nesse projeto foi um divisor de águas. A empresa não só voltou a ser relevante — ela voltou a ser estratégica.
Com sua capacidade de projetar, fabricar e empacotar chips de altíssimo desempenho em escala, a Intel se posiciona como peça-chave para viabilizar esse tipo de infraestrutura massiva. Em outras palavras: não é só sobre competir com NVIDIA ou AMD. É sobre participar diretamente da construção da próxima era computacional.
Ainda longe do topo, mas de volta ao jogo
Mesmo com essa recuperação impressionante, é importante manter os pés no chão. A Intel ainda está longe das gigantes trilionárias que dominam a era da IA. Empresas como NVIDIA, Microsoft e Apple operam em um nível completamente diferente de valuation e influência.
Mas isso não diminui o feito.
Sair de menos de US$ 100 bilhões para mais de US$ 300 bilhões em tão pouco tempo não é apenas recuperação — é reestruturação profunda. É mudança de narrativa. É a prova de que o mercado ainda acredita que a Intel pode ter um papel relevante no futuro da tecnologia.
A pergunta que fica: é sustentável?
Existe um detalhe importante que ninguém pode ignorar: a última vez que a Intel atingiu esse tipo de valuation foi durante a bolha dot-com. E a gente sabe muito bem como aquilo terminou.
O próprio mercado parece mais cauteloso agora. O crescimento atual da Intel está ancorado em fundamentos mais sólidos — infraestrutura de IA, parcerias estratégicas, reposicionamento industrial — mas também depende de execução impecável.
Se errar de novo, a queda pode ser tão rápida quanto a subida.
Mas se acertar…
A Intel pode deixar de ser a empresa que perdeu a revolução da IA para se tornar uma das responsáveis por sustentá-la.
E isso muda completamente o jogo.



