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Cloudflare alerta: bots de IA podem gerar 1.000 vezes mais tráfego que humanos na internet

A internet está prestes a ficar muito menos humana. A Cloudflare acredita que, mantido o ritmo atual de crescimento da automação e dos agentes de inteligência artificial, o tráfego produzido por máquinas poderá ser até 1.000 vezes maior que o gerado por pessoas dentro dos próximos cinco anos.

A previsão foi apresentada por Thomas Seifert, diretor financeiro da Cloudflare, durante a divulgação dos resultados financeiros da companhia no segundo trimestre de 2026. Segundo o executivo, isso não significa necessariamente que as pessoas deixarão de utilizar a internet. O problema — ou transformação, dependendo do ponto de vista — é que as máquinas estão aumentando sua participação em uma velocidade absurdamente maior.

Seifert resumiu a situação dizendo que, nesse cenário, os humanos poderão se tornar praticamente um “erro de arredondamento” dentro do tráfego total da internet.

E a previsão talvez não seja tão exagerada quanto parece. A própria Cloudflare já havia estimado anteriormente que os bots ultrapassariam o tráfego humano somente no final de 2027. Aconteceu bem antes: em 2026, máquinas já passaram a responder por mais tráfego da web que usuários humanos.

O novo exército de bots é muito diferente

Bots não são exatamente novidade. Mecanismos de busca utilizam crawlers há décadas para percorrer sites, indexar páginas e descobrir novos conteúdos. Sistemas automatizados também são empregados em monitoramento, segurança, coleta de preços e, evidentemente, atividades maliciosas.

O que está mudando completamente a escala dessa atividade é a chegada dos agentes de inteligência artificial.

Diferentemente de um crawler tradicional, que segue padrões relativamente previsíveis, um agente de IA pode navegar pela web de maneira muito parecida com um usuário comum. Ele pesquisa, acessa páginas, compara informações, abre vários resultados e pode repetir todo esse processo milhares de vezes em poucos segundos.

Matthew Prince, CEO e cofundador da Cloudflare, utilizou uma comparação simples para demonstrar a diferença. Uma pessoa procurando uma câmera para comprar talvez visite cinco lojas antes de decidir. Um agente de IA fazendo a mesma pesquisa em nome dessa pessoa poderia consultar 5.000 sites.

Agora multiplique isso por milhões de usuários pedindo para assistentes compararem preços, pesquisarem hotéis, encontrarem passagens aéreas, resumirem notícias, analisarem documentos ou procurarem informações técnicas.

O resultado é uma quantidade gigantesca de solicitações que nunca foram feitas diretamente por uma pessoa.

 

Um simples pedido pode gerar milhares de acessos

Esse é um dos aspectos mais importantes da nova geração de agentes. Para o usuário, uma solicitação pode parecer extremamente simples.

Algo como “encontre o notebook com melhor custo-benefício” pode representar apenas uma frase digitada em uma interface. Por trás dela, no entanto, um agente pode visitar dezenas, centenas ou até milhares de páginas, consultar preços, especificações, avaliações e disponibilidade antes de apresentar uma resposta.

Ou seja, uma única interação humana pode resultar em milhares de interações feitas por máquinas.

É exatamente essa diferença de escala que ajuda a explicar a previsão da Cloudflare.

O tráfego humano pode continuar crescendo normalmente e ainda assim se tornar estatisticamente insignificante quando comparado ao volume produzido automaticamente por sistemas de IA.

A infraestrutura da internet também terá que mudar

Se esse crescimento realmente acontecer, não será apenas uma curiosidade estatística. Toda a infraestrutura da internet terá que lidar com uma quantidade muito maior de requisições.

Seifert afirmou que empresas como a Cloudflare precisarão se tornar muito mais eficientes para suportar esse cenário.

Servidores, redes de distribuição de conteúdo, sistemas de mitigação de ataques e mecanismos de identificação de bots terão que processar um volume crescente de atividade automatizada sem simplesmente bloquear agentes legítimos junto com bots maliciosos.

E essa distinção tende a ficar cada vez mais difícil.

Um agente de IA moderno pode navegar por um site utilizando padrões semelhantes aos de uma pessoa real. Ele pode acessar várias páginas, realizar pesquisas, clicar em links e consultar APIs de maneira aparentemente legítima.

Ao mesmo tempo, essas mesmas capacidades podem ser utilizadas para scraping agressivo, fraude, ataques automatizados ou coleta massiva de informações.

A teoria da “internet morta” começa a parecer menos absurda

Existe há anos uma teoria conhecida como Dead Internet Theory, ou teoria da internet morta, segundo a qual grande parte da atividade online já seria produzida artificialmente por bots, sistemas automatizados e conteúdo gerado por máquinas.

A ideia sempre foi tratada como uma mistura de exagero, teoria conspiratória e crítica ao estado das redes sociais.

Mas uma internet onde máquinas geram centenas ou milhares de vezes mais tráfego que pessoas torna pelo menos parte dessa visão muito menos fantasiosa.

Isso não significa que os humanos desaparecerão da rede. Na prática, ocorre algo mais curioso: as pessoas continuam sendo a razão pela qual boa parte dessa atividade existe, mas deixam de ser responsáveis diretamente por ela.

Você pede alguma coisa para uma IA, o agente navega por centenas de páginas e depois entrega o resultado. Tecnicamente, apenas uma pessoa iniciou a operação. Todo o restante foi tráfego produzido por máquinas.

E quem paga a conta?

Existe ainda outro problema importante nessa transformação: o modelo econômico que sustentou grande parte da web durante décadas.

Sites independentes dependem de visitantes para gerar receita com publicidade, assinaturas, afiliados ou outros serviços. Porém, agentes de IA podem coletar essas informações sem necessariamente enviar o usuário original até a página.

O usuário faz uma pergunta, o sistema consulta dezenas de fontes e apresenta uma resposta diretamente na interface do assistente.

Para quem utiliza a IA, é conveniente.

Para quem produziu o conteúdo consultado, a situação é bem mais complicada.

Esse fenômeno também está relacionado ao chamado “zero-click internet”, no qual mecanismos de busca e assistentes entregam informações sem que o usuário precise acessar o site de origem.

Se essa tendência continuar, a web poderá enfrentar uma situação paradoxal: mais tráfego do que nunca circulando entre servidores, mas menos pessoas efetivamente visitando páginas.

A internet do futuro pode ser uma rede de máquinas conversando entre si

O cenário imaginado pela Cloudflare parece quase ficção científica, mas a tecnologia necessária para isso já existe.

Assistentes pessoais pesquisando produtos, agentes negociando serviços, sistemas comparando preços, ferramentas analisando documentos, robôs monitorando sites e modelos de IA coletando informações podem formar uma camada gigantesca de comunicação máquina a máquina sobre a web tradicional.

Em vez de uma internet construída principalmente para pessoas navegarem por páginas, poderemos ter uma infraestrutura onde agentes digitais passam a agir como representantes permanentes dos usuários.

Nesse contexto, dizer que os humanos serão um “erro de arredondamento” não significa que deixaremos de importar.

Significa algo talvez ainda mais estranho: continuaremos comandando a internet, mas cada vez menos estaremos navegando por ela diretamente.

E se a previsão da Cloudflare estiver correta, dentro de poucos anos a maior parte da atividade online poderá ser composta por máquinas procurando, lendo, comparando e conversando com outras máquinas.

A internet ainda será nossa.

Só talvez não sejamos mais nós que estaremos clicando.