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Apple aposta alto em The Stormlight Archive e resgata fórmula que ajudou Game of Thrones a dominar a TV

A Apple parece disposta a descobrir se existe espaço para uma nova superprodução de fantasia capaz de ocupar o gigantesco vazio deixado por Game of Thrones. E, em vez de seguir uma das tendências mais questionáveis do streaming moderno, a empresa está olhando justamente para uma característica que ajudou a transformar a série da HBO em um fenômeno mundial: temporadas com espaço suficiente para contar histórias realmente grandes.

A adaptação de The Stormlight Archive, saga literária criada por Brandon Sanderson, terá 10 episódios em sua primeira temporada. A informação foi revelada pelo próprio escritor durante uma conversa com Joe Abercrombie, quando Sanderson também confirmou que será o principal roteirista da produção e escreverá uma parcela significativa dos episódios.

Para quem acompanha a fantasia na televisão, dez episódios podem parecer apenas um detalhe técnico. Não são. Em uma época na qual temporadas de seis, sete ou oito capítulos se tornaram praticamente o padrão das grandes plataformas, a decisão pode ser fundamental para uma adaptação baseada em livros conhecidos justamente pela escala monumental de seus mundos.

E The Stormlight Archive definitivamente não é uma história pequena.

O primeiro livro, The Way of Kings, apresenta Roshar, um mundo devastado regularmente por tempestades colossais e habitado por diferentes povos, culturas, religiões e estruturas políticas. É nesse cenário que Sanderson desenvolve personagens como Kaladin, Shallan Davar e Dalinar Kholin enquanto, aos poucos, apresenta conceitos relacionados aos Knights Radiant, às Shardblades, às Shardplates e a um sistema de magia profundamente conectado à própria história daquele universo.

Transformar tudo isso em televisão já seria complicado. Fazer isso em seis episódios poderia transformar a adaptação em uma corrida contra o relógio.

A escolha de dez capítulos lembra justamente o formato utilizado por Game of Thrones durante grande parte de sua trajetória. As seis primeiras temporadas da produção da HBO tiveram dez episódios cada, incluindo as temporadas 3 e 4, responsáveis por alguns dos momentos mais lembrados da série.

Não foi simplesmente a quantidade de episódios que tornou aquela fase tão eficiente. O verdadeiro diferencial estava no que os roteiristas podiam fazer com aquele espaço.

Game of Thrones conseguia passar vários minutos acompanhando Tyrion e Cersei discutindo política dentro de uma sala. Arya podia atravessar Westeros enquanto sua história avançava gradualmente. Daenerys podia permanecer durante episódios inteiros em outro continente sem que a série precisasse imediatamente conectá-la aos acontecimentos de Porto Real. Personagens aparentemente secundários recebiam desenvolvimento suficiente para que suas decisões posteriores realmente tivessem peso.

Westeros existia independentemente da câmera.

Quando Game of Thrones chegou às temporadas finais, entretanto, a estrutura mudou. A sétima temporada caiu para sete episódios e a oitava ficou com apenas seis. Naturalmente, reduzir o número de capítulos não explica sozinho todas as críticas recebidas pelo encerramento da produção, mas a mudança coincidiu com uma aceleração bastante perceptível da narrativa.

Viagens que anteriormente poderiam ocupar episódios passaram a acontecer rapidamente. Conflitos políticos foram resolvidos em períodos menores. Grandes acontecimentos começaram a se suceder quase sem intervalo.

É exatamente esse tipo de problema que uma adaptação de Brandon Sanderson precisa evitar.

Os livros de The Stormlight Archive ultrapassam facilmente a escala tradicional de romances de fantasia. The Way of Kings, por exemplo, possui mais de mil páginas em diversas edições e utiliza boa parte desse espaço não apenas para avançar a trama principal, mas para construir personagens e explicar Roshar gradualmente.

Sanderson também gosta de esconder informações importantes em detalhes aparentemente pequenos. Elementos apresentados centenas de páginas antes podem ganhar novo significado muito depois. Cortar agressivamente cenas consideradas pouco importantes pode produzir consequências enormes quando uma adaptação alcançar acontecimentos posteriores.

Existe ainda outro fator que torna o projeto particularmente interessante: Brandon Sanderson não está apenas observando Hollywood adaptar seus livros de longe.

O escritor assumiu participação criativa direta nas adaptações desenvolvidas com a Apple. Além de trabalhar em The Stormlight Archive, ele escreveu o roteiro de Mistborn, outro dos pilares do Cosmere. Em 28 de julho de 2026, Sanderson anunciou oficialmente que havia concluído a primeira versão do roteiro do filme, ressaltando que o projeto ainda estava em uma etapa inicial de um processo bastante longo.

Isso coloca a Apple diante de algo potencialmente muito maior do que uma única série.

O Cosmere é essencialmente um universo compartilhado literário. Diversas obras de Sanderson acontecem em planetas diferentes, possuem sistemas de magia próprios e inicialmente podem parecer completamente independentes. Conforme o leitor avança, entretanto, conexões começam a surgir. Personagens aparecem em histórias diferentes, acontecimentos possuem repercussões além de seus mundos originais e uma mitologia maior começa lentamente a tomar forma.

É uma estrutura que, se funcionar no audiovisual, oferece à Apple algo raro: uma franquia concebida desde sua origem como um universo interconectado, mas cujas histórias conseguem funcionar individualmente.

Mistborn e The Stormlight Archive são os primeiros grandes candidatos dessa estratégia. O acordo envolvendo o Cosmere foi revelado no início de 2026, com Mistborn sendo desenvolvido para o cinema e Stormlight para televisão.

Para a Apple, também é uma expansão bastante lógica de uma estratégia que a plataforma já demonstrou saber executar em outro gênero.

Nos últimos anos, a Apple TV construiu uma coleção impressionante de ficção científica. Foundation, Silo, Severance, For All Mankind e Dark Matter mostraram que a empresa está confortável financiando universos complexos, conceitos difíceis de explicar e produções que exigem investimento considerável em efeitos visuais.

Alta fantasia é praticamente o próximo chefe dessa campanha.

E Roshar não será barato.

O planeta imaginado por Sanderson possui ecossistemas próprios, criaturas gigantescas, cidades construídas para sobreviver a tempestades devastadoras e batalhas envolvendo armas e armaduras sobrenaturais. Uma adaptação visualmente convincente precisará encontrar um equilíbrio complicado entre cenários físicos, efeitos digitais e design de produção.

Mas dinheiro sozinho não resolve esse problema. Hollywood já demonstrou várias vezes que orçamentos gigantescos conseguem produzir mundos visualmente impressionantes e narrativamente vazios.

Tempo também é orçamento.

Dez episódios significam mais oportunidades para Roshar ser apresentado como um lugar, e não simplesmente como um cenário onde a trama acontece. Significam tempo para Kaladin existir antes de se transformar no personagem que os leitores conhecem. Tempo para Shallan desenvolver suas relações e seus conflitos. Tempo para Dalinar carregar o peso de sua história.

Esse talvez seja o aspecto mais importante da comparação com Game of Thrones.

O grande legado das primeiras temporadas da produção da HBO não está apenas nas batalhas gigantescas ou nas mortes inesperadas. Está nos episódios que faziam o público se importar profundamente com personagens antes dessas batalhas acontecerem.

Quando a Batalha da Água Negra finalmente chegou, Tyrion já havia passado praticamente duas temporadas tentando sobreviver politicamente em Porto Real. Quando o Casamento Vermelho aconteceu, o público havia acompanhado Robb Stark por anos. O espetáculo funcionava porque existia uma enorme quantidade de construção narrativa sustentando aqueles momentos.

The Stormlight Archive precisa exatamente disso.

Quem conhece Sanderson sabe que seus livros frequentemente caminham em direção ao que os fãs apelidaram de “Sanderlanche”: longos períodos de preparação narrativa que desembocam em sequências finais nas quais revelações, batalhas e arcos de personagens começam a convergir rapidamente.

Sem a preparação, sobra apenas a avalanche.

E uma avalanche sem montanha não impressiona ninguém.

Naturalmente, ainda é cedo demais para colocar The Stormlight Archive no mesmo patamar de Game of Thrones. Até setembro de 2026, a produção continua em desenvolvimento e ainda não possui elenco, data de início das filmagens ou janela oficial de lançamento anunciados. O próprio material oficial de Sanderson continua tratando as adaptações como projetos em andamento, enquanto Mistborn está atualmente mais avançado no processo de escrita.

Isso significa que ainda existe uma longa estrada entre dez episódios planejados e dez episódios realmente disponíveis na Apple TV.

Existe algo animador na filosofia inicial do projeto.

Durante anos, o streaming vendeu a ideia de que temporadas menores necessariamente significariam televisão mais cinematográfica. Em alguns casos funcionou perfeitamente. Em outros, séries passaram a parecer filmes excessivamente longos divididos arbitrariamente em capítulos, enquanto histórias enormes precisavam disputar cada minuto disponível.

Fantasia épica talvez seja justamente o gênero menos compatível com essa obsessão por compressão.

Não basta mostrar um mapa gigantesco durante a abertura. O espectador precisa compreender por que aquelas cidades importam, quem vive nelas, quais povos estão em conflito e por que uma decisão tomada por alguém em determinado reino pode provocar consequências centenas de quilômetros distante.

Esse tipo de escala precisa ser construído.

A Apple aparentemente entendeu que adaptar The Stormlight Archive significa aceitar o tamanho de The Stormlight Archive.

Dez episódios não garantem uma boa série. Não garantem bons roteiros, elenco perfeito, efeitos convincentes ou direção inspirada. Também não transformam automaticamente a produção na sucessora de Game of Thrones.

Mas oferecem algo extremamente importante para uma história dessa magnitude: espaço.

E depois de tantos streamings tentando descobrir como transformar livros gigantescos em temporadas cada vez menores, talvez uma das ideias mais interessantes da próxima grande aposta da fantasia seja também uma das mais simples.

Se a história é enorme, talvez seja melhor simplesmente deixá-la ser enorme.