Cinema • Ficção científica • Em desenvolvimento
Marte esconde uma sociedade inteira. E Hollywood tenta, mais uma vez, levá-la à tela grande.
Francis Lawrence dirigirá a adaptação de Pierce Brown para a Paramount. Ainda não há elenco, filmagens ou data de estreia confirmados.
Uma sociedade dividida em castas identificadas por cores, trabalhadores mantidos na ignorância sobre o próprio mundo e uma revolução que ameaça atravessar o Sistema Solar: a premissa de Red Rising, saga de Pierce Brown, tem escala suficiente para sustentar uma grande aventura cinematográfica. O desafio, como tantos fãs descobriram ao acompanhar seus longos anos de desenvolvimento, é convencer um estúdio a bancar essa escala.
Em 27 de outubro de 2026, o diretor Francis Lawrence falou sobre a tentativa anterior de transformar os livros em série e explicou por que considera mais promissora a nova parceria com a Paramount. A adaptação continua em desenvolvimento, mas finalmente há nomes definidos para funções essenciais.
A confirmação de que Lawrence comandará o filme veio em 16 de outubro. O cineasta, conhecido especialmente pelos filmes de Jogos Vorazes, trabalhará com o roteirista Justin Rhodes, enquanto Brown participa como produtor executivo. A notícia não significa que câmeras já estejam rodando ou que exista uma estreia marcada.
O primeiro livro acompanha Darrow, um jovem pertencente à casta Vermelha. Ele acredita que seu trabalho é fundamental para preparar Marte para a chegada da humanidade, até descobrir que a realidade sobre a colonização e a organização da sociedade foi escondida de pessoas como ele.
O contraste entre o mundo em que Darrow pensa viver e aquele que efetivamente existe é a engrenagem de uma história que combina ficção científica, política de classes e disputas por poder. A revelação faz o protagonista confrontar não só quem o domina, mas a própria ideia de ascensão em um sistema projetado para perpetuar privilégios.
O romance já existe. O filme ainda precisa acontecer.
A trajetória de Darrow começa no subsolo de Marte. Francis Lawrence pretende levar essa história ao cinema, mas a produção ainda não anunciou elenco nem filmagens.
Capa editorial: Hodderscape / Hodder & Stoughton.
Uma sociedade organizada por cores
A hierarquia de Red Rising não é apenas decoração futurista: define o lugar social dos personagens e suas oportunidades.
Elite dominante; concentram poder político e privilégios.
Trabalhadores explorados; Darrow pertence a essa casta.
Funções sociais especializadas, com direitos e status desiguais.
Um universo maior que a comparação com Jogos Vorazes
É tentador vender Red Rising simplesmente como uma espécie de Jogos Vorazes no espaço. Há paralelos superficiais: juventude submetida a estruturas opressoras, competição, propaganda e violência como instrumento político. Mas reduzir Brown à comparação seria esconder aspectos particulares de seu universo.
Na conversa divulgada nesta terça-feira, Lawrence relatou que a versão anteriormente desenvolvida para a Netflix não encontrou compromisso definitivo da plataforma. Segundo seu relato, a adaptação permaneceu presa a mudanças de direção, até que os direitos retornaram a Pierce Brown. O autor levou então o projeto à Paramount.
A longa viagem até Hollywood
O desenvolvimento anterior para a Netflix não recebeu compromisso definitivo, segundo Francis Lawrence.
Com os direitos novamente disponíveis, Pierce Brown buscou outro parceiro para a adaptação.
A Paramount desenvolve o filme com Lawrence na direção e Justin Rhodes no roteiro.
O dilema de adaptar uma saga tão grande
Essa mudança de série para filme tem consequências artísticas. Uma temporada poderia acompanhar com mais calma as instituições, relações sociais e intrigas que dão textura ao universo; um longa precisará escolher com precisão onde concentrar o tempo.
O roteiro de Justin Rhodes enfrentará a tarefa de apresentar o funcionamento das castas, construir a relação do público com Darrow e desenvolver o conflito central sem transformar cada conversa em uma explicação enciclopédica. O desafio não é resumir o livro capítulo a capítulo, e sim descobrir o que faz sua trajetória funcionar dramaticamente na tela.
Existe também a dimensão visual. A ficção de Brown transita entre ambientes industriais, centros de poder e espaços monumentais de uma sociedade futurista. Nenhum desses cenários será convincente apenas porque recebeu efeitos digitais caros. O mundo precisa transmitir diferenças materiais entre as classes: a forma de morar, trabalhar, vestir-se e circular deve contar parte da história antes mesmo de os personagens explicarem as regras.
É uma lição que bons filmes de gênero conhecem bem. Em Blade Runner, a cidade participa do drama; em Duna, arquitetura e paisagem dão peso à política. Red Rising tem a oportunidade de encontrar uma linguagem própria.
Lawrence tem experiência com narrativas de ação que dependem de conflitos políticos. Isso o torna uma escolha compreensível, mas não constitui garantia de adaptação bem-sucedida. Em especial, há um equilíbrio delicado entre entretenimento de grande escala e as ideias mais sombrias de uma obra.
Se a câmera ficar somente nos combates e nas viradas espetaculares, o sistema de castas pode virar um detalhe decorativo. Se o filme apostar exclusivamente na exposição ideológica, perderá a energia da aventura. A obra exige as duas coisas: emoção para acompanhar personagens e clareza para compreender as estruturas que os empurram às escolhas extremas.
Promessa legítima, não estreia garantida
Outro risco é a tentação de tratar o primeiro filme como um enorme prólogo para futuras continuações. O cinema já acumulou adaptações que terminam antes de oferecer uma experiência completa, confiando que o público voltará para resolver pendências.
A escolha do cinema pode, inclusive, devolver ao gênero de aventura espacial um projeto com identidade distinta das grandes marcas estabelecidas. O público conhece universos repletos de impérios, rebeldes e naves, mas Red Rising combina esses elementos com uma pergunta própria: o que alguém precisa sacrificar para derrubar uma estrutura social quando foi educado a acreditar nela? Uma boa adaptação não deve confundir violência com profundidade; sua força estará em mostrar os personagens transformados por esse conflito, não somente as batalhas que conseguem vencer.

