O ajuste foi aprovado pela Netflix e pela Warner Bros. Discovery e registrado oficialmente, deixando claro que o streaming gigante não pretende aumentar o valor nominal da proposta, mas sim torná-la mais atraente, previsível e rápida de aprovar. Em um cenário onde confiança vale quase tanto quanto dinheiro, a Netflix aposta no fator segurança.
Dinheiro agora, menos risco depois
A mudança para uma oferta 100% em dinheiro não aconteceu por acaso. A proposta anterior misturava caixa e ações da Netflix, o que abriu espaço para críticas da Paramount, especialmente depois da queda significativa no valor dos papéis da própria Netflix. Desde que a disputa veio a público, tanto Netflix quanto Paramount viram suas ações despencarem cerca de 29%, corroendo a percepção de valor das ofertas baseadas em ações.
Ao eliminar esse componente variável, a Netflix tenta neutralizar um dos principais argumentos da rival: o risco embutido em ações voláteis. O discurso agora é simples e direto: valor definido, pagamento garantido e menos incertezas para os acionistas da Warner Bros. Discovery.
Um prêmio cobiçado: Warner Bros. e HBO
O pacote que está em disputa não é pequeno. A oferta da Netflix envolve os lendários estúdios da Warner Bros., em Burbank, além da operação da HBO. Estamos falando de um catálogo que atravessa gerações, com marcas como “Casablanca”, “Batman”, “Matrix” e “The Big Bang Theory”. É o tipo de biblioteca que redefine o peso cultural e comercial de qualquer empresa que a controle.
Curiosamente, a Netflix deixou claro que não tem interesse nos canais básicos de TV a cabo da Warner. Esses ativos — como CNN, TBS, HGTV e Food Network — devem ser desmembrados em uma nova empresa chamada Discovery Global, que será distribuída aos acionistas após a conclusão do negócio.
Paramount ataca, Warner resiste
A Paramount não está assistindo passivamente. A empresa vem pressionando diretamente os acionistas da Warner, pedindo que aceitem sua oferta de US$ 30 por ação para a companhia inteira. Além disso, partiu para o campo jurídico, questionando nos tribunais de Delaware como o conselho da Warner chegou à avaliação dos ativos de TV a cabo.
Até agora, o conselho da Warner Bros. Discovery permanece firme ao lado da Netflix. Mesmo com uma proposta nominalmente menor, a diretoria considera a estrutura financeira da Netflix mais sólida e menos alavancada. A Paramount, por outro lado, precisaria levantar mais de US$ 94 bilhões entre dívida e capital próprio para fechar o negócio, algo visto internamente como um risco considerável.
Discovery Global: o lado B do acordo
Com a separação dos canais a cabo, nasce a Discovery Global, uma empresa que já estreia com números relevantes — e dúvidas proporcionais. A nova companhia deve carregar cerca de US$ 17 bilhões em dívida em meados de 2026, número que pode cair para US$ 16,1 bilhões até o fim do ano, impulsionado por um fluxo de caixa melhor que o esperado.
As projeções indicam uma receita de US$ 16,9 bilhões em 2026, com um EBITDA ajustado de US$ 5,4 bilhões. Ainda assim, o valor real desses canais é motivo de disputa. Consultores da Warner estimam algo entre US$ 0,72 e US$ 6,86 por ação, enquanto a Paramount insiste que esses ativos praticamente não têm valor — uma afirmação curiosa, considerando que canais a cabo ainda representam grande parte de sua própria receita.
Netflix joga com caixa e narrativa
No comunicado oficial, a Netflix reforçou sua capacidade de geração de caixa e afirmou que a oferta totalmente em dinheiro preserva um balanço saudável, além de manter flexibilidade para futuras prioridades estratégicas. A empresa já garantiu US$ 42,2 bilhões em empréstimos-ponte, normalmente substituídos depois por dívidas de longo prazo, como títulos corporativos.
Essa postura reforça a imagem que a Netflix tenta construir nessa disputa: a de um comprador financeiramente preparado, com menos improviso e mais previsibilidade. Em um setor cada vez mais pressionado por margens apertadas e investidores cautelosos, essa narrativa pesa.
Um negócio que pode redefinir Hollywood
A batalha pela Warner Bros. é facilmente um dos maiores movimentos da indústria do entretenimento na última década. Mais do que um simples jogo de cifras, trata-se de decidir quem controlará alguns dos ativos criativos mais influentes do planeta em uma era dominada pelo streaming.
A Netflix surgiu como uma candidata inesperada depois que a Warner colocou seus ativos à venda, mas rapidamente deixou claro que não está apenas testando as águas. Ao colocar dinheiro vivo na mesa, a empresa envia um recado direto ao mercado: não é apenas sobre vencer a Paramount, é sobre acelerar o futuro do entretenimento sob seu próprio ecossistema.
Com a votação dos acionistas prevista para abril, o tabuleiro está montado. E, como toda boa disputa corporativa de alto nível, o desfecho promete impacto muito além das salas de reunião.


