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Raised by Wolves: A última obra-prima sci-fi que o algoritmo matou (review/recomendação)

Se Raised by Wolves tivesse saído nos anos 80, hoje estaria estampado em pôsteres metalizados nas paredes de fãs que cresceram lendo Asimov e ouvindo Vangelis. Mas em vez disso, ela nasceu em 2020, numa época em que séries são descartadas com a mesma facilidade que thumbnails de TikTok. O resultado? Uma das experiências mais ambiciosas da ficção científica moderna foi simplesmente… ignorada. E depois, cancelada.

Claro, tudo tem seu contexto. E ele começa com um nome: Ridley Scott.

Ridley Scott ainda quer fazer perguntas, não dar respostas

Diretor de Alien, Blade Runner e o quase-mítico Prometheus, Ridley Scott tem essa mania incômoda de querer cutucar feridas filosóficas em vez de entregar pipoca mastigada. Em Raised by Wolves, ele faz exatamente isso — só que dessa vez sem xenomorfos nem androids com complexo de Jesus… ok, talvez só o último.

A série começa com dois androides, Mãe e Pai, enviados para colonizar um planeta desolado com um punhado de embriões humanos, depois que a Terra vira cinzas por causa de uma guerra religiosa. Parece simples? É porque você não assistiu. Em poucas cenas, a série já mergulha de cabeça em discussões sobre fé, programação emocional, doutrinação, livre arbítrio e o que diabos significa “criar” uma criança num mundo onde até os deuses são sintéticos.

Ah, e tem serpentes voadoras gigantes, é claro. Porque Ridley Scott nunca foi sutil.

O maior crime de Raised by Wolves: ser inteligente demais pra sua época

É irônico. A série era uma das primeiras produções originais do HBO Max. Tinha pedigree, direção autoral, visual absurdo e ideias suficientes pra preencher uma trilogia de livros. Mas o algoritmo não tem tempo pra digestão lenta. Ele quer engajamento imediato, reação em massa, thumbnails gritantes. E Raised by Wolves não entregava isso. O que ela entregava era algo raro: provocação.

Resultado? Duas temporadas. Cancelada. Fim.

Não teve encerramento digno, não teve epílogo. Só um cliffhanger que virou cemitério de potencial, igualzinho ao que fizeram com Carnivàle, The OA, Utopia e toda série que ousa ser mais do que entretenimento de tela secundária.

Blade Runner também fracassou no começo. A diferença? Ele sobreviveu.

Ridley Scott já viu esse filme antes. Em 1982, Blade Runner foi xingado pela crítica, ignorado pelo público e sabotado pelo estúdio. Só virou o que virou porque teve tempo de envelhecer, ganhar novas versões, ser redescoberto, debatido, cultuado. A televisão do streaming atual não permite isso. Ela não tem paciência. Cancelam antes mesmo da série ter chance de virar cult.

Raised by Wolves merecia esse tempo. Era densa? Sim. Lenta? Às vezes. Críptica? Com certeza. Mas era viva. E num mar de conteúdo genérico, isso já deveria valer renovações automáticas.

Vale a pena assistir mesmo sabendo que nunca acaba?

Sim. Porque mesmo incompleta, Raised by Wolves é uma das raras séries de ficção científica que tratam o espectador como um ser pensante. Cada episódio é um enigma.

Cada decisão de personagem parece saída de um ensaio de Nietzsche sobre paternidade artificial. E a estética? Um casamento perturbador entre design biomecânico, arquitetura brutalista e desolação existencial.

Você vai sair com mais perguntas do que respostas — e isso é exatamente o que torna tudo tão bom.