Enquanto o mundo digital se curva diante das promessas da inteligência artificial, no coração do Japão, um estúdio lendário continua a resistir. Para Goro Miyazaki, filho do cofundador Hayao Miyazaki e atual diretor do Studio Ghibli, o legado do estúdio está ancorado em algo que nenhuma rede neural consegue emular: humanidade.
Em tempos em que programas de IA são capazes de gerar ilustrações em segundos no estilo Ghibli, Goro admite a sofisticação crescente dessas ferramentas. Ele reconhece que o cinema provavelmente abraçará cada vez mais essa tecnologia, e não se surpreenderia se, em poucos anos, surgisse um filme criado totalmente por IA. Mas, para ele, esse tipo de produção nunca substituirá o olhar humano que moldou as obras que encantaram gerações.
A visão de Goro sobre o futuro do estúdio é inseparável da presença de seu pai e do produtor Toshio Suzuki. Ambos, afirma, são insubstituíveis. Não se trata apenas de habilidade técnica ou de anos de experiência, mas da profundidade existencial que os dois imprimem em cada frame. O passado de Miyazaki pai, marcado por experiências de guerra, é parte essencial do que dá forma à dualidade de seus filmes — doces e brutais, puros e cheios de morte. É uma sensibilidade que, nas palavras de Goro, “não pode ser replicada por jovens de hoje nem por algoritmos”.
Hayao Miyazaki, aos 84 anos, ainda trabalha em um novo longa. Mas mesmo que sua saúde vacile, seu desprezo pela inteligência artificial continua inabalável. Durante as filmagens de um documentário da NHK, ele expressou seu repúdio a uma animação gerada por IA, classificando-a como um “insulto à vida”. Aquilo, para ele, era a prova de que quem a criou nunca entendeu a dor — e, portanto, jamais deveria animá-la.
Apesar de toda essa crítica, Goro também vislumbra algo positivo no avanço tecnológico. Para ele, a IA pode abrir caminhos para talentos inesperados, dar voz a criadores que antes não tinham espaço na indústria. Mas mesmo com essa esperança, ele não acredita que o público queira consumir animações feitas completamente por IA. Ainda assim, o Japão já deu os primeiros passos nesse sentido com o anime Twins Hinahima, em que cerca de 95% das cenas foram geradas por IA — algo que talvez seja um vislumbre do que está por vir.
Por ora, o Studio Ghibli permanece como um bastião da animação feita com alma. Mas a pergunta permanece no ar como a trilha de um avião em um céu de aquarela: o que acontece quando os mestres não puderem mais criar? A tecnologia poderá preencher esse vazio ou apenas ecoar a superfície de algo que foi, no fundo, profundamente humano?


