Logo no começo da série Humans da AMC, uma adolescente questiona qual seria o objetivo de ir para a faculdade e passar anos treinando para ser uma neurocirurgiã se afinal de contas um android avançado, que é algo comum no mundo da série, pode ser programado com as mesmas habilidades de um humano com quase uma década de estudos de forma praticamente instantânea.
É uma boa questão que também mostra a crescente preocupação que temos atualmente em relação ao avanço da robótica e pesquisa envolvendo inteligência artificial que poderia causar a chamada morte do conhecimento especializado humano. Enquanto a filha levanta estas questões que parecem ter saído de nossas mentes a sua mãe está preocupada com o novo Synth ( O termo da série para Androides ) que estaria ali para substitui-la.
Novamente Humans volta a mostrar de forma bem clara nossos medos em relação ao futuro cujos problemas não parecem tão diferentes dos que temos atualmente e esta abordagem funciona muito bem para a série, pois apesar de se tratar de ficção, você imediatamente consegue se relacionar com os personagens na tela e os seus medos e ansiedades.
[fvplayer src=”http://www.geekzilla.com.br/wp-content/uploads/videos/Humansfeat.mp4″ width=”600″ height=”350″ embed=”false” splashend=”show” splash=”https://www.geekzilla.com.br/wp-content/uploads/2015/06/tumblr_static__640_v2.jpg”]
Humans é uma co-produção da AMC e do Channel 4 do Reino Unido ( e um remake da série Sueca Real Humans) ambientada em um presente alternativo, é um mundo praticamente igual ao nosso a não ser pelo detalhe de que a moda e sonho de consumo da sociedade é algo bem mais prático do que um iPhone, são os chamados Synths que são basicamente “escravos domésticos” que podem fazer qualquer atividade desde cozinhar até cuidar de pessoas doentes.
Mas o problema, voltando aos medos que citamos anteriormente, é que os Synths também começam a serem antagonizados por alguns grupos pois os androides estão também substituindo as pessoas em determinados trabalhos especializados, da mesma forma que em nosso mundo atual e os robôs nas fábricas.
Claro você já deve ter pensado, “Então todo tipo de trabalho especializado?”, sim, inclusive prostituição, a mais humana das indústrias por assim dizer.
São coisas que não são exatamente novas no mundo da ficção, em termos de conceitos, mas a abordagem é diferente e inovadora, ao se concentrar na família Hawkins ( a da adolescente e da mãe que citamos antes) vemos o efeito que um Synth causa em uma família normal. Outro ponto interessante é que não existe exposição desnecessária e cansativa na série como ocorre com tantas produções sci-fi.
Quando Joe, o patriarca da família Hawkins, leva a sua filha para comprar o seu primeiro synth é como se ele estivesse indo comprar um novo smartphone, ele acaba escolhando uma synth a qual eles dão o nome de Anita. O problema é que a esposa dele, Laura, é visivelmente contra a expansão/utilização dos synths.


















Laura mais uma vez é a manifestação dos nossos medos, ela se sente ameaçada por Anita que parece perfeita tanto no visual quanto em tudo o que ela faz. Mattie ,a filha de Laura, também não quer ter nada a ver com a synth justamente devido a sua crise existencial e o seu lugar em uma sociedade que parece ter tudo pronto para substituir os seres humanos que ainda não sabem exatamente como tratar um synth, seria o androide um utensílio ou parte da família ?
Quanto a Mattie, mais uma vez ela tem uma preocupação válida, veja o exemplo da tradução em tempo real sendo testada pela Microsoft no Skype, será que tal sistema poderia substituir os tradutores no futuro ? Será que os tradutores simultâneos serão extintos por tal sistema ?
Mas vemos as coisas também da perspectiva dos synth, Anita parece o típico androide a princípio, mas ela tem momentos em que parece quase humana e é aqui que as coisas começam a ficar interessantes, existe um grupo de synths perto de atingir a verdadeira consciência e naturalmente existe uma organização tentando encontra-los e estuda-los.
Como toda boa ficção Humans na verdade está tentando mostrar o estado atual da nossa sociedade, os problemas da familia Hawkins são similares aos enfrentados quando uma pessoa nova entra na vida de uma família ou grupo e também mostra as mudanças que ocorrem, a forma como Anita muda a vida deles e em muitos pontos para melhor.
É uma mudança de hábitos e estilo de vida que também se compara a forma como nossas vidas foram alteradas pelos tablets e smartphones em termos de relacionamento social e comportamento.

Temos ainda um terceiro lado nesta estoria, William Hurt ( que vocês devem se lembrar como inventor da inteligência artificial no filme I.A no filme de Steven Spielberg) que interpreta um cientista que ajudou a criar os synths e agora tem dificuldades para se despedir do seu synth que está com problemas e guarda as memórias da sua vida com a sua esposa. Alias as cenas com Hurt são angustiantes de várias maneiras e o ator como sempre dá um grande peso a série e ao seu personagem que é um dos pontos mais humanos da série.
Em geral, assim como a audaciosa Battlestar Galactica, Humans, funciona como uma alegoria para a forma como tratamos uns aos outros e a série também representa nosso medo coletivo de mudança, além da nossa facilidade em mudar certos conceitos morais, escravidão por exemplo, um synth pode ser facilmente comprado, mas se eles forem conscientes quando é que começamos a considerar os seus direitos civis ?
Outro ponto interessante é que Humans desvia do padrão de filmes/séries “fim dos tempos” quando o assunto é a revolução das máquinas, vide Terminator Genisys e segue um estilo por vezes parecido com Ex Machina, é algo mais íntimo, mais próximo do nosso estado mental atual e é por isso que a série funciona tão bom, são temas que nos preocupam e que fazem sentido a longo prazo, personalidades como Elon Musk da SpaceX e Stephen Hawking tem sido bem diretos em relação a estas preocupações relacionadas ao desenvolvimento de inteligência artificial e sua relação com os seres humanos e Humans está canalizando este medo e nos dando uma pequena visão de um possível futuro próximo que vale a pena ser conferido.

