Trama/Ambientação
Na trama, acompanhamos dois protagonistas de mundos diferentes e ideologias colidindo. De um lado, Alek, jovem herdeiro do trono austro-húngaro forçado ao exílio após o assassinato de seu pai, o que desencadeia o conflito global.
Do outro, Deryn Sharp, uma escocesa teimosa que se disfarça de garoto para conseguir voar nos céus como piloto da força aérea britânica. O destino dos dois se cruza a bordo do HMS Leviathan, uma baleia-dirigível viva, onde se inicia uma jornada de amadurecimento, política, guerra, segredos e romance à la Mulan.
A série brilha especialmente no desenvolvimento da dupla, cuja química carrega muito do coração narrativo da obra. Entre dilemas de identidade, mentiras necessárias e laços forjados em meio ao caos, Leviathan consegue equilibrar tensão, empatia e evolução emocional com uma sensibilidade rara. Quem curte dinâmicas de grupo estilo Avatar: A Lenda de Aang vai se sentir em casa — só que aqui, o misticismo sai de cena para dar lugar à graxa, engrenagens e moralidade em frangalhos.
Animação que não convence
Mas nem tudo voa como deveria. Embora a Studio Orange seja referência em CG de alta qualidade, aqui ela parece… tímida. O visual da série funciona bem em momentos estáticos, com design de criaturas e mechas riquíssimo, mas perde impacto em movimento. A sensação de “cutscene de RPG com orçamento apertado” aparece mais vezes do que deveria, tirando potência de momentos que pediam espetáculo. E o contraste com os belíssimos créditos finais — pintados em aquarela, com arte conceitual vibrante — só escancara o que o anime poderia ter sido se tivesse arriscado mais no visual.
Felizmente, a trilha sonora entra como força gravitacional e compensa muito. Joe Hisaishi (sim, o mestre por trás de Viagem de Chihiro e O Castelo no Céu) entrega um tema de abertura chamado “Paths Combine” que vale sozinho o play no episódio. A música embala até os momentos mais contidos com um peso emocional elegante, enquanto Nobuko Toda e Kazuma Jinnouchi (de Ghost in the Shell e Metal Gear Solid 4) reforçam as batalhas com tensão e energia. É uma trilha que conversa com a alma do projeto — épica, mas intimista.
Roteiro não faz bem jus ao livro, mas é funcional
Em termos de roteiro, Leviathan não reinventa a roda. Muitos dos beats narrativos são familiares: traições, perdas trágicas, romance construído em segredo e aquela clássica troca de identidades. Mas a força está na resposta emocional dos personagens. O anime não enrola o espectador com reviravoltas desnecessárias — quando o drama vem, ele é direto, sincero e com payoff emocional real. Mesmo nas partes previsíveis, há um cuidado evidente em manter a narrativa coerente e honesta.
No fim das contas, Leviathan não alcança a grandiosidade de seu próprio nome, mas mantém altitude com dignidade. É uma história sobre identidade, dever e a eterna busca por escolher o próprio caminho quando o mundo tenta empurrar outro. Em vez de focar no espetáculo, ele prefere um tom contemplativo e íntimo — algo raro em um gênero dominado por explosões e melodrama barato.

















Se você curte steampunk, narrativas históricas com toque fantástico, ou está só atrás de uma aventura com coração no lugar certo, Leviathan merece sua atenção. Imperfeito? Sim. Mas é justamente essa humanidade falha que faz a série soar verdadeira. Como seus protagonistas, o anime não tem todas as respostas — mas se compromete com a jornada.
Leviathan já está disponível na Netflix.



