GeekZilla
InstagramSeries/Cinema

James Cameron mergulha no lado sombrio da fantasia com The Devils

Enquanto Avatar: Fire and Ash segue em pós-produção e se prepara para seu lançamento em dezembro de 2025, James Cameron já aponta para o que será sua próxima empreitada — e, surpreendentemente, ela não envolve Pandora, flechas bioluminescentes ou ecossistemas em 3D. A próxima jornada do diretor canadense será através das sombras moralmente ambíguas de The Devils, adaptação do novo livro de Joe Abercrombie, autor conhecido por elevar a fantasia grimdark a patamares narrativos muito além do maniqueísmo.

Sim, Cameron vai adaptar uma história onde “os monstros são a melhor esperança de sobrevivência”. E, ao contrário do que se poderia esperar do criador de Titanic e Avatar, não parece que ele esteja buscando um hit de bilheteria puramente escapista — mas sim uma válvula de escape criativo para algo mais visceral, ácido e sujo.

Abercrombie, para os que ainda não foram convertidos por seus mundos repletos de cinismo e violência estilizada, é o tipo de autor que desconstrói tudo o que Tolkien construiu, com personagens quebrados, diálogos afiados e uma recusa absoluta em romantizar o heroísmo. E é justamente essa estética que Cameron parece querer explorar com The Devils. Em suas palavras, trata-se de um “rompante alternativo de idade média, estilizado, cheio de monstros e moralidade em ruínas”.

Nada mais distante do idealismo ecológico de Avatar — e talvez justamente por isso tão necessário para um diretor que vem sendo soterrado pelo próprio universo que criou.

Cameron longe de Pandora (pelo menos por um tempo)

Vale lembrar que Cameron já tem planejadas as partes 4 e 5 de Avatar, com cronograma apertado até 2031. The Devils surge, portanto, como um interlúdio criativo entre Fire and Ash e a próxima megaoperação azul. Mas não se trata de um projeto menor: Abercrombie participará diretamente da adaptação e, segundo o próprio Cameron, o livro já possui uma estrutura cinematográfica natural, com ritmo de “montanha-russa” e personagens que “parecem já estar prontos para o casting”.

Isso sugere que o desenvolvimento da adaptação será acelerado — algo raro para o perfeccionismo lendário do diretor.

A decisão também marca uma mudança de prioridade. Cameron havia adquirido os direitos de Ghosts of Hiroshima, projeto baseado nas obras de Charles Pellegrino, que abordaria o trauma real das bombas nucleares. Porém, entre um épico de guerra realista e um pesadelo fantástico povoado por párias e aberrações, a escolha recaiu sobre a fantasia. Talvez seja questão de timing, talvez de sanidade criativa. Seja como for, The Devils parece ter engatilhado algo que nem mesmo o impacto histórico de Hiroshima conseguiu provocar em Cameron: entusiasmo imediato.

Do idealismo à corrosão

A mudança de tom entre Avatar e The Devils não é apenas estética, mas filosófica. Em vez de metáforas óbvias sobre equilíbrio ambiental e imperialismo, teremos dilemas morais borrados, traições, alianças forjadas por desespero e redenções que só valem porque foram manchadas por decisões questionáveis. O próprio Cameron admite: “a linha entre o bem e o mal aqui é praticamente inexistente”.

Ou seja, sai a pureza simbólica dos Na’vi e entra o realismo sujo de personagens que poderiam muito bem ser descritos como vilões em qualquer outra narrativa tradicional. E essa é, talvez, a aposta mais ousada do diretor em décadas: contar uma história onde ninguém é herói — e ainda assim capturar o público.

Abercrombie, por sua vez, parece tão empolgado quanto: “Cameron equilibra espetáculo com drama como ninguém”, disse. “E The Devils é, sim, um monstro estranho e maravilhoso que merece esse tipo de abordagem.”

Uma nova fase (finalmente)?

O interesse de Cameron por narrativas moralmente ambíguas pode ser lido como um sinal de maturidade artística tardia ou como uma tentativa de escapar do beco criativo que Avatar se tornou. Seja qual for o motivo, The Devils representa algo raro: uma possibilidade de ver um cineasta obcecado por controle absoluto se aventurar por territórios menos previsíveis, mais irregulares — e, com sorte, mais humanos.

Se o projeto realmente sair do papel antes de Avatar 4, teremos a chance de testemunhar uma rara colisão entre o universo cáustico de Abercrombie e a grandiosidade técnica de Cameron. Uma colisão que, ao contrário das luas destruídas de Pandora, pode muito bem nos lembrar que a fantasia também pode ser cruel, suja, imperfeita — e ainda assim indispensável.

Avalie esta página
Clique nas barras