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Amazon ressuscita Stargate, mas entrega nova série à criadora de Agatha All Along: o que poderia dar errado?

Depois de anos de espera, projetos abandonados e promessas que nunca saíram do papel, Stargate está novamente nos planos da Amazon MGM Studios. A notícia poderia representar um daqueles raros momentos em que Hollywood finalmente entende o valor de uma franquia clássica. Mas existe um pequeno detalhe capaz de transformar a empolgação em preocupação: a nova responsável pelo projeto será Jac Schaeffer, criadora de WandaVision e Agatha All Along.

Sim, a Amazon decidiu descartar uma proposta desenvolvida por Martin Gero, roteirista que trabalhou diretamente em Stargate SG-1 e Stargate Atlantis, para apostar em alguém cuja experiência mais conhecida envolve as produções televisivas da Marvel.

É uma escolha curiosa. Quase tão curiosa quanto encontrar um Stargate enterrado no deserto e decidir que a melhor pessoa para operá-lo é alguém que nunca viu os símbolos de endereço.

Segundo informações divulgadas pela Variety, Schaeffer desenvolverá uma nova série para a Amazon MGM Studios, atuando também como produtora executiva ao lado de Joby Harold e Tory Tunnell, da Safehouse Pictures. O projeto ainda está em desenvolvimento, sem elenco, previsão de estreia ou confirmação pública de produção definitiva.

A questão, portanto, não é apenas se Stargate finalmente voltará. É qual Stargate a Amazon pretende entregar ao público.

A Amazon tinha um veterano de Stargate. Preferiu começar novamente

Em novembro de 2025, a notícia de que Martin Gero estava liderando uma nova produção de Stargate trouxe uma esperança legítima aos fãs. Não porque todo profissional que trabalhou em uma franquia seja automaticamente capaz de recuperá-la, mas porque Gero possuía algo que não se encontra facilmente nos escritórios de Hollywood: familiaridade real com aquele universo.

Gero participou das equipes criativas de SG-1 e Atlantis, duas séries que ajudaram a construir a identidade televisiva da franquia. Seu envolvimento representava a possibilidade de uma continuação capaz de respeitar décadas de histórias sem impedir a chegada de novos espectadores.

Mas, em junho de 2026, a Amazon abandonou sua proposta. Segundo os relatos publicados na época, havia preocupações de que a abordagem não conseguisse atrair um público suficientemente amplo além dos admiradores tradicionais.

É aqui que a lógica corporativa começa a ficar particularmente interessante.

Hollywood compra uma franquia porque ela possui uma identidade, uma mitologia e uma base fiel de espectadores. Depois, contrata executivos para explicar por que essa mesma identidade talvez seja um obstáculo ao crescimento. Em seguida, inicia um processo para torná-la mais acessível, frequentemente correndo o risco de remover justamente aquilo que justificou sua aquisição.

É como comprar um restaurante famoso pela comida italiana e decidir que o problema do estabelecimento é servir comida italiana demais.

Naturalmente, ninguém pode afirmar que o projeto de Gero seria excelente. O público sequer teve a oportunidade de assisti-lo. Mas substituí-lo não constitui, por si só, uma demonstração de que a Amazon encontrou uma direção melhor.

A decisão provocou uma reação expressiva de parte dos fãs, incluindo campanhas com a hashtag #SaveStargate e manifestações defendendo o retorno do projeto original.

Jac Schaeffer: o sucesso de WandaVision não apaga os problemas de Agatha All Along

Seria injusto afirmar que Jac Schaeffer não possui talento. WandaVision apresentou uma proposta criativa interessante, utilizando formatos clássicos da televisão para explorar o luto de Wanda Maximoff. A série possuía identidade visual, um mistério central e uma premissa que justificava suas experimentações narrativas.

Entretanto, WandaVision não é um cheque em branco para qualquer franquia de ficção científica. E o trabalho seguinte de Schaeffer, Agatha All Along, oferece motivos consideráveis para questionar sua adequação a um universo como Stargate.

Para esta análise editorial do GeekZilla, Agatha All Along representa uma das direções criativas menos interessantes adotadas pela Marvel em sua expansão televisiva.

A produção apostou em uma mistura de fantasia, humor, melodrama, mistério e comentários contemporâneos, mas frequentemente pareceu mais interessada em celebrar sua própria personalidade do que em construir uma aventura realmente envolvente.

Os problemas aparecem no desenvolvimento irregular dos personagens, nas mudanças bruscas de tom e em uma narrativa que nem sempre consegue transformar suas revelações em consequências dramáticas satisfatórias. O mistério existe, mas o envolvimento emocional depende excessivamente de o espectador comprar a proposta estética e os conflitos pessoais apresentados.

Há ainda uma discussão que Hollywood parece determinada a transformar em guerra cultural permanente: a representatividade.

Agatha All Along investiu fortemente em temas de identidade, sexualidade e relacionamentos LGBTQ+. Esses elementos fazem parte da história e podem funcionar perfeitamente dentro de uma produção bem escrita. O problema surge quando a impressão transmitida é a de que a importância cultural de uma obra está sendo utilizada como argumento para compensar suas fragilidades narrativas.

Personagens diversos não são um problema. Personagens mal desenvolvidos continuam sendo personagens mal desenvolvidos, independentemente de quem representem. E nenhuma quantidade de discurso sobre inclusão transforma automaticamente uma história fraca em uma história excelente.

Parte da indústria parece confundir crítica artística com rejeição ideológica, como se questionar decisões de roteiro significasse necessariamente rejeitar as identidades representadas na tela. Essa confusão é conveniente porque desvia a discussão daquilo que realmente importa: a obra funciona como entretenimento?

No caso de Agatha All Along, nossa avaliação é negativa. A série teve uma recepção crítica favorável em agregadores como o Rotten Tomatoes, algo que precisa ser reconhecido. Mas aprovação crítica não elimina problemas de execução, tampouco transforma preferência artística em verdade absoluta.

E, principalmente, uma produção centrada em bruxaria, conflitos pessoais e fantasia sobrenatural não constitui uma demonstração particularmente convincente de capacidade para comandar uma franquia de exploração espacial, diplomacia interplanetária, guerra e ficção científica militar.

Stargate não precisa de uma nova personalidade. Precisa lembrar quem é

Lançado em 1994, o filme Stargate, dirigido por Roland Emmerich e estrelado por Kurt Russell e James Spader, apresentou uma premissa extraordinariamente simples: um dispositivo alienígena permite viajar instantaneamente para outros planetas.

A genialidade estava nas possibilidades dessa ideia.

Quando Stargate SG-1 estreou em 1997, a franquia encontrou sua identidade definitiva. Jack O’Neill, Daniel Jackson, Samantha Carter e Teal’c não eram apenas personagens enfrentando alienígenas. Eles faziam parte de uma organização militar e científica tentando compreender tecnologias, culturas e ameaças muito além da experiência humana.

A série combinava exploração, arqueologia, humor, conflitos diplomáticos, ciência, estratégia militar e histórias sobre civilizações que haviam evoluído sob a influência de forças extraterrestres.

Os Goa’uld não eram simplesmente vilões extravagantes com naves impressionantes. Representavam uma estrutura de dominação construída sobre religião, escravidão e manipulação tecnológica.

Os Replicadores introduziam outra ameaça: máquinas capazes de se multiplicar, adaptar e consumir tecnologias, colocando civilizações inteiras diante de um inimigo que não podia ser enfrentado apenas com armamentos convencionais.

Os Asgard, os Antigos e diversas outras espécies contribuíam para uma mitologia que crescia organicamente, mantendo conexões com descobertas e acontecimentos anteriores.

Stargate Atlantis expandiu esse universo para a galáxia de Pegasus, enquanto Stargate Universe tentou desenvolver uma abordagem mais dramática, acompanhando uma tripulação isolada a bordo da Destiny.

Em todos esses casos, o universo era maior do que os personagens. Suas histórias pessoais importavam porque estavam inseridas em conflitos, mistérios e descobertas de proporções extraordinárias.

Stargate não se tornou especial tentando reproduzir as tendências mais populares da televisão. Tornou-se especial porque construiu sua própria identidade.

O verdadeiro perigo: transformar Stargate em mais uma série genérica de streaming

O maior receio não é que Schaeffer inclua novos personagens, conflitos emocionais ou temas contemporâneos. Tudo isso pode fazer parte de uma boa produção de ficção científica.

O problema seria repetir uma fórmula cada vez mais comum: adquirir uma propriedade intelectual consolidada e reconstruí-la para atender a uma visão criativa que considera seus elementos tradicionais secundários.

Imagine uma nova série de Stargate na qual a exploração de mundos desconhecidos seja reduzida a um pano de fundo para intermináveis conflitos interpessoais, diálogos excessivamente autoconscientes e personagens cujas características sejam apresentadas como substitutos de desenvolvimento dramático.

Não seria impossível produzir uma boa história dessa maneira. Mas seria uma escolha estranha para uma franquia cuja maior virtude sempre foi transformar a descoberta do desconhecido no coração de sua narrativa.

A Amazon também precisa compreender que modernizar uma obra não significa necessariamente desconstruí-la.

Stargate já apresentava personagens femininas competentes e fundamentais, diferentes culturas, dilemas morais complexos, conflitos políticos e questionamentos sobre religião, autoridade e poder. Samantha Carter, por exemplo, não precisava interromper a aventura para anunciar sua importância. Sua inteligência, coragem e competência eram demonstradas continuamente.

O mesmo vale para os conflitos envolvendo Teal’c, cuja trajetória abordava libertação, opressão e a resistência contra um sistema de dominação construído ao longo de gerações.

Esses temas funcionavam porque estavam integrados à história, não porque os roteiros exigiam reconhecimento por abordá-los.

Essa deveria ser a referência para qualquer nova equipe criativa: personagens construídos por suas decisões, consequências e relações com o universo, não apenas pelas características que representam.

Uma continuação de SG-1, Atlantis e Universe ainda é possível?

Por enquanto, ninguém sabe se o projeto de Jac Schaeffer será uma continuação, uma reformulação parcial ou um reinício completo.

Também não existem confirmações sobre possíveis retornos de Richard Dean Anderson, Michael Shanks, Amanda Tapping, Christopher Judge ou outros integrantes das produções anteriores.

É uma incerteza importante.

Stargate Universe terminou em 2011 deixando questões narrativas sem resolução. Atlantis também possuía espaço para novas histórias, enquanto o universo estabelecido por SG-1 oferecia inúmeras possibilidades para explorar as consequências do avanço tecnológico e político da humanidade.

Uma nova equipe poderia perfeitamente assumir o protagonismo, décadas depois dos acontecimentos originais, sem apagar a continuidade existente. Seria uma maneira de apresentar o universo a novos espectadores e, simultaneamente, recompensar aqueles que acompanharam sua evolução.

O que não faria sentido seria tratar três décadas de mitologia como bagagem inconveniente apenas porque escrever uma continuação exige um pouco mais de trabalho.

Afinal, se o objetivo é produzir uma aventura espacial completamente diferente, Hollywood possui uma solução bastante simples: criar uma franquia nova.

Amazon está tentando salvar Stargate ou apenas aproveitar sua marca?

Existe uma diferença fundamental entre recuperar uma franquia e explorar seu reconhecimento comercial.

Recuperar Stargate significa compreender seus personagens, sua mitologia, sua estrutura de exploração e os elementos que construíram sua comunidade de admiradores.

Explorar a marca significa utilizar o nome, colocar um portal circular em alguma cena e esperar que a nostalgia faça o trabalho pesado da divulgação.

A escolha de Jac Schaeffer não prova que a Amazon seguirá o segundo caminho. Seria precipitado condenar uma série que sequer possui roteiro público, elenco ou data de estreia.

Mas também seria ingênuo ignorar os sinais de alerta.

O estúdio descartou a proposta de um veterano da franquia alegando preocupações com seu alcance comercial e agora aposta em uma profissional cujo currículo está associado a produções com linguagem, prioridades dramáticas e público bastante diferentes daqueles tradicionalmente ligados a Stargate.

É uma aposta legítima do ponto de vista empresarial. Artisticamente, porém, permanece uma decisão difícil de justificar sem conhecer a nova proposta.

O veredito do GeekZilla: esperança em nível crítico, escudos no máximo

É perfeitamente possível que Jac Schaeffer surpreenda, abandone parte das fórmulas utilizadas em suas produções anteriores e entregue uma excelente série de ficção científica. Profissionais criativos não estão condenados a repetir o mesmo estilo durante toda a carreira.

Entretanto, considerando o histórico recente de Hollywood com franquias clássicas, a troca de Martin Gero por Schaeffer inspira muito mais cautela do que entusiasmo.

O universo de Stargate não precisa ser salvo de seus próprios fãs, não precisa passar por uma reconstrução ideológica para justificar sua existência e definitivamente não precisa se transformar em uma extensão estética das produções televisivas da Marvel.

Precisa de bons roteiros. Precisa de exploração. Precisa de personagens interessantes, ciência, mistério, consequências reais e da sensação de que atravessar aquele portal pode revelar algo extraordinário ou terrivelmente perigoso.

E, acima de tudo, precisa de uma equipe criativa que compreenda por que milhões de pessoas continuam interessadas nesse universo mesmo depois de tantos anos sem uma grande produção televisiva.

A Amazon possui os direitos, os recursos financeiros e uma mitologia praticamente inesgotável. Falta demonstrar que possui a visão necessária para utilizá-los.

Os Goa’uld tentaram dominar a humanidade. Os Replicadores tentaram consumir civilizações inteiras. Os Ori tentaram impor sua verdade à galáxia. Mas talvez a maior ameaça que Stargate enfrente agora seja uma sala de executivos convencida de que sabe melhor do que os próprios criadores o que a franquia deveria ser.

Esperamos estar errados. Porque, depois de quinze anos sem uma grande série, seria lamentável descobrir que o portal finalmente voltou a funcionar apenas para nos transportar ao mesmo problema de sempre.