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Desenvolvedor usa IA para criar alternativas gratuitas ao Photoshop, Premiere e outros cinco programas da Adobe (ArtCraft,)

A inteligência artificial está começando a desafiar não apenas a maneira como os softwares são utilizados, mas também como eles são desenvolvidos. Um exemplo dessa transformação é o ArtCraft, projeto de código aberto criado pelo desenvolvedor Brandon Thomas, que pretende oferecer alternativas gratuitas a sete dos programas mais conhecidos da Adobe, incluindo Photoshop, Premiere Pro e After Effects.

A iniciativa surgiu, em parte, da insatisfação de Thomas com as políticas de assinatura e cancelamento da Adobe. Em vez de simplesmente procurar alternativas disponíveis no mercado, o desenvolvedor decidiu utilizar inteligência artificial para construir suas próprias ferramentas.

O resultado é uma coleção de aplicativos desenvolvidos em Rust, com auxílio do modelo Claude Opus 5.5, da Anthropic. Todos são disponibilizados como projetos de código aberto, permitindo que outros desenvolvedores examinem, modifiquem e contribuam com o código.

Sete alternativas gratuitas aos programas da Adobe

O objetivo do ArtCraft é reproduzir funcionalidades e fluxos de trabalho familiares aos usuários da Adobe, reduzindo a necessidade de aprender interfaces completamente diferentes ao migrar para outras soluções.

Atualmente, o projeto reúne sete aplicações:

  • Photocraft: alternativa ao Adobe Photoshop, voltada à edição e manipulação de imagens.
  • Vectorcraft: inspirado no Adobe Illustrator, com foco na criação e edição de gráficos vetoriais.
  • Filmcraft: alternativa ao Adobe Premiere Pro, destinada à edição e montagem de vídeos.
  • Lightcraft: equivalente ao Adobe Lightroom, direcionado à fotografia e ao tratamento de imagens.
  • Effectcraft: inspirado no Adobe After Effects, para composição visual e efeitos em vídeo.
  • Designcraft: alternativa ao Adobe InDesign, voltada à diagramação e ao design editorial.
  • Printcraft: projeto que busca reproduzir funcionalidades do Adobe Acrobat Pro para documentos PDF.

As ferramentas foram concebidas como implementações independentes, desenvolvidas sem utilizar diretamente o código proprietário da Adobe. Essa abordagem, conhecida como clean-room implementation, procura reproduzir comportamentos e funcionalidades de um software a partir de especificações públicas e observação de seu funcionamento.

Isso não significa, porém, que reproduzir a aparência de uma aplicação seja suficiente para alcançar a mesma qualidade, compatibilidade ou desempenho do programa original.

Claude e Rust: como a inteligência artificial está acelerando o desenvolvimento

Segundo Thomas, o Claude Opus 5.5 desempenhou um papel importante na construção dos aplicativos. O modelo de inteligência artificial foi utilizado para auxiliar na implementação de funcionalidades e na escrita de código em Rust, linguagem conhecida por sua preocupação com segurança de memória e desempenho.

O desenvolvedor afirma possuir aproximadamente 15 anos de experiência na indústria de software, incluindo cerca de uma década trabalhando com Rust. Essa experiência é um detalhe relevante: embora a inteligência artificial tenha acelerado o desenvolvimento, o projeto também depende de conhecimento técnico para definir a arquitetura, integrar componentes e identificar problemas.

Em uma publicação no Reddit, Thomas chegou a afirmar que sua equipe alcançaria 100% de paridade funcional com os aplicativos da Adobe em apenas um mês.

Posteriormente, durante discussões no Hacker News, apresentou uma previsão mais cautelosa, sugerindo que alcançar 99% de equivalência poderia levar meses, em vez de anos.

São metas extremamente ambiciosas. Programas como Photoshop, Premiere Pro e After Effects acumulam décadas de desenvolvimento, otimizações, ferramentas profissionais e integrações que não podem ser reproduzidas apenas pela semelhança visual de suas interfaces.

Os aplicativos realmente conseguem substituir a Adobe?

Por enquanto, não de maneira abrangente.

Apesar da proposta interessante e da disponibilização pública do código, o ArtCraft ainda está em um estágio inicial. Usuários que experimentaram as aplicações relataram problemas envolvendo funcionalidades básicas, indicando que a distância entre os novos programas e seus equivalentes comerciais permanece significativa.

Uma alternativa profissional ao Photoshop, por exemplo, precisa oferecer muito mais do que camadas, pincéis e ferramentas de seleção. Compatibilidade confiável com arquivos PSD, gerenciamento de cores, máscaras complexas, desempenho com imagens grandes e estabilidade em projetos extensos são fatores importantes para fotógrafos e designers.

O mesmo vale para edição de vídeos. Substituir o Premiere Pro exige lidar com diferentes codecs, linhas do tempo complexas, aceleração por hardware, efeitos, áudio, exportação e projetos profissionais sem comprometer a estabilidade.

Por isso, embora o ArtCraft represente uma demonstração interessante do potencial da inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento, ainda seria prematuro recomendar suas ferramentas como substitutas definitivas dos produtos da Adobe.

A polêmica das assinaturas e a multa milionária da Adobe

A motivação de Thomas também está relacionada a uma controvérsia que atingiu diretamente a Adobe nos Estados Unidos.

Em junho de 2024, o Departamento de Justiça norte-americano e a Federal Trade Commission (FTC) processaram a empresa, acusando-a de ocultar informações importantes sobre taxas de cancelamento antecipado e dificultar o encerramento de determinadas assinaturas.

Entre as práticas questionadas estavam cobranças que, em certos contratos anuais, poderiam corresponder a 50% do valor restante da assinatura.

Em março de 2026, a Adobe anunciou um acordo de US$ 150 milhões para resolver o processo. O valor foi dividido entre US$ 75 milhões em penalidades civis e outros US$ 75 milhões em serviços gratuitos destinados a clientes elegíveis.

O acordo também estabeleceu medidas para tornar mais claras as informações sobre cobranças e facilitar os procedimentos de cancelamento. A Adobe, entretanto, rejeitou as acusações e manteve sua posição de que não havia cometido irregularidades.

Para desenvolvedores como Thomas, esse histórico reforça a importância de oferecer alternativas que não dependam de pagamentos recorrentes ou contratos com cobranças por cancelamento antecipado.

Como o ArtCraft pretende sustentar sete programas gratuitos?

Manter aplicativos profissionais exige mais do que disponibilizar seu código na internet. Correções de segurança, compatibilidade com novos sistemas operacionais, evolução das funcionalidades e atendimento a problemas relatados pela comunidade representam custos contínuos.

Thomas afirma que o financiamento do projeto deverá vir de outra atividade comercial do ArtCraft: a venda de créditos para utilização de modelos de inteligência artificial voltados à geração de imagens e vídeos.

Esse modelo permitiria manter os editores gratuitos enquanto serviços de IA oferecidos separadamente ajudariam a financiar seu desenvolvimento.

O responsável também incentiva a participação da comunidade de código aberto, especialmente no registro de problemas, envio de correções e aperfeiçoamento das funcionalidades existentes.

A sustentabilidade dessa estratégia, entretanto, ainda precisa ser demonstrada ao longo do tempo.

O desafio não é apenas técnico: existem questões legais

Outro aspecto importante envolve a propriedade intelectual.

Recriar funcionalidades de um programa por meio de uma implementação independente não representa, automaticamente, uma violação de direitos autorais. Entretanto, a utilização de marcas, elementos visuais protegidos, código proprietário ou outros componentes específicos pode levantar questionamentos jurídicos.

O uso da abordagem clean-room procura reduzir esses riscos, mas não garante imunidade contra disputas legais.

Até o momento, a possibilidade de uma reação jurídica da Adobe permanece uma questão em aberto, e não uma consequência confirmada do lançamento dos aplicativos.

A inteligência artificial pode transformar o mercado de software?

A proposta do ArtCraft aparece em um momento no qual ferramentas de inteligência artificial já conseguem auxiliar programadores na criação de aplicações completas, automatizar tarefas repetitivas e acelerar processos que anteriormente exigiam equipes maiores.

O caso também levanta uma questão sobre o futuro do software comercial: se desenvolvedores independentes conseguirem construir alternativas competitivas com investimentos menores, empresas estabelecidas poderão enfrentar uma pressão crescente sobre seus modelos de licenciamento.

Isso não significa que o desenvolvimento tradicional esteja condenado. Projetos complexos continuam exigindo arquitetura consistente, testes, manutenção, segurança, documentação e decisões técnicas que não desaparecem simplesmente porque uma IA consegue gerar código.

Também existem alternativas gratuitas e consolidadas no mercado, como GIMP, Krita e Photopea para edição de imagens. A principal aposta do ArtCraft é oferecer ferramentas que se aproximem não apenas das funcionalidades, mas também da experiência de utilização dos programas da Adobe.

Thomas acredita que iniciativas semelhantes poderão alcançar outros setores da tecnologia, incluindo mecanismos de busca, infraestrutura digital e até dispositivos eletrônicos.

Sua declaração mais provocativa resume essa visão: “Software is over”, ou “o software acabou”.

É uma afirmação exagerada, especialmente considerando o estágio inicial das aplicações. Mas a discussão que ela provoca é relevante: a inteligência artificial pode reduzir significativamente as barreiras para a criação de alternativas a produtos que, durante décadas, dependeram de investimentos milionários.

Para o GeekZilla, o ponto mais interessante não é imaginar o desaparecimento das empresas tradicionais, mas observar o surgimento de uma nova dinâmica competitiva. Se projetos como o ArtCraft conseguirem evoluir até oferecer estabilidade e compatibilidade reais, usuários poderão ganhar mais liberdade de escolha e depender menos de ecossistemas fechados.

Por enquanto, o ArtCraft é uma experiência promissora, não uma revolução concluída. Seu verdadeiro teste será demonstrar que os programas conseguem fazer muito mais do que simplesmente parecer com os aplicativos que pretendem substituir.

Onde conhecer os projetos do ArtCraft?

Os interessados podem acompanhar o desenvolvimento dos aplicativos, consultar o código-fonte e verificar as instruções disponibilizadas pelos responsáveis diretamente no GitHub.

Vale destacar: como os aplicativos ainda estão em desenvolvimento, é recomendável avaliar a estabilidade e manter cópias de segurança dos arquivos antes de utilizá-los em trabalhos importantes.