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Peter Cullen, a voz eterna de Optimus Prime, morre aos 85 anos

Ator canadense marcou gerações como o líder dos Autobots em Transformers, deu voz ao melancólico Ió de Ursinho Pooh e participou de clássicos como O Predador, Knight Rider e Tico e Teco: Defensores da Lei.

Uma das vozes mais reconhecíveis da cultura pop se calou. Peter Cullen, lendário ator responsável por dar voz a Optimus Prime em Transformers, morreu aos 85 anos em sua casa em Los Angeles, nos Estados Unidos.

A morte aconteceu na quarta-feira, 26 de agosto. A informação foi confirmada pelo agente do ator, Kevin Motley, e posteriormente divulgada por veículos como BBC, Associated Press, Variety, The Hollywood Reporter e ABC News. Até o momento, a causa da morte não foi divulgada.

Segundo comunicado divulgado pela família, Cullen morreu pacificamente, cercado por seus familiares. A mensagem também pediu aos fãs que honrem seu legado praticando os mesmos valores que acompanharam sua vida e acabaram se tornando inseparáveis de Optimus Prime: compaixão, integridade e lealdade.

“Seja forte o suficiente para ser gentil.”

A frase resume não apenas uma das ideias que definiram Optimus Prime, mas também a história por trás da maneira como Peter Cullen criou aquela que se tornaria sua interpretação mais famosa.

Mais do que a voz de Optimus Prime

Para milhões de fãs, é praticamente impossível separar Peter Cullen de Optimus Prime.

Cullen assumiu o personagem em 1984, na série animada original de Transformers. Sua voz grave, calma e imponente ajudou a transformar o comandante dos Autobots em algo muito maior do que o protagonista de um desenho criado para acompanhar uma linha de brinquedos.

Optimus tornou-se uma representação de liderança, coragem, responsabilidade e sacrifício.

E Cullen permaneceu ligado ao personagem durante mais de quatro décadas.

Quando Hollywood levou Transformers aos cinemas em live-action em 2007, Peter Cullen foi chamado novamente para interpretar Optimus Prime. Sua voz acompanhou o personagem durante a franquia cinematográfica e chegou até Transformers: O Despertar das Feras, de 2023, além de aparecer em animações, videogames e outras produções derivadas da franquia.

Em sua homenagem oficial, a Hasbro destacou justamente essa relação incomum entre ator e personagem, lembrando que Cullen não apenas deu uma voz ao líder dos Autobots: ele ajudou milhões de pessoas a formar uma ideia sobre coragem, sacrifício e liderança.

A origem da voz de Optimus Prime

A história de como Peter Cullen encontrou a voz de Optimus é uma das mais conhecidas entre os fãs de Transformers.

Antes da audição para o desenho, Cullen conversou com seu irmão mais velho, Larry Cullen, veterano condecorado dos Marines dos Estados Unidos que havia servido na Guerra do Vietnã.

Ao saber que Peter faria um teste para interpretar um herói, Larry deu um conselho simples: não interprete um “herói de Hollywood”. Faça dele um herói de verdade.

Para Larry, um verdadeiro líder não precisava ficar gritando para demonstrar força.

Ele deveria ser compassivo, compreensivo e seguro o suficiente para demonstrar gentileza.

Peter Cullen levou aquela ideia para a audição.

Baixou o tom da voz, eliminou a interpretação exagerada normalmente associada aos heróis dos desenhos da época e criou uma presença calma, paternal e absolutamente autoritária.

Nascia ali a voz de Optimus Prime.

Cullen posteriormente contou que conseguia ouvir a voz do irmão durante a audição. A influência foi tão importante que, durante anos, Peter dividiu com Larry parte do dinheiro que recebia pelo personagem.

“Be strong enough to be gentle”

A filosofia acabou ultrapassando Transformers.

“Be strong enough to be gentle” — ou “seja forte o suficiente para ser gentil” — tornou-se praticamente o lema de Peter Cullen e uma das características fundamentais associadas a Optimus Prime.

Depois da notícia de sua morte, a própria Hasbro publicou uma homenagem lembrando a influência de Larry na criação do personagem e descrevendo Cullen como alguém cuja calma, humildade e força silenciosa eram muito parecidas com aquelas que ele transmitia através de Optimus.

A empresa encerrou sua homenagem com uma frase imediatamente reconhecível por qualquer fã da franquia:

“Rest easy, Peter. Till all are one.”

Também foi a voz de Ió em Ursinho Pooh

Apesar da associação praticamente inseparável com Transformers, a carreira de Peter Cullen foi gigantesca.

Outro personagem que acompanhou o ator durante décadas foi Ió (Eeyore), o eternamente pessimista e adoravelmente melancólico burrinho do universo de Ursinho Pooh.

Cullen interpretou o personagem em As Novas Aventuras do Ursinho Pooh, no final dos anos 1980, e continuou participando de diferentes séries, filmes, especiais e videogames da Disney.

É uma demonstração interessante de sua versatilidade: o mesmo ator capaz de produzir a presença monumental e heroica de Optimus Prime também conseguia entregar a personalidade cansada, triste e extremamente simpática de Ió.

Você provavelmente já ouviu Peter Cullen sem saber

A voz de Cullen está espalhada por décadas da televisão, do cinema e da animação.

Em Knight Rider, conhecido no Brasil como A Super Máquina, ele interpretou KARR, o protótipo maligno relacionado ao famoso carro inteligente KITT.

Em O Predador, de 1987, Cullen ajudou a criar as vocalizações da criatura enfrentada por Arnold Schwarzenegger, incluindo seus característicos sons de clique.

Ele também produziu vocalizações para King Kong, no filme de 1976.

Na animação, sua carreira passou por uma quantidade impressionante de produções, incluindo DuckTales, Homem-Aranha, Alvin e os Esquilos, Dungeons & Dragons, My Little Pony, Ursinhos Gummi e Tico e Teco: Defensores da Lei, onde interpretou Monterey Jack.

Uma carreira construída antes dos Transformers

Nascido em Montreal, no Canadá, Peter Cullen começou sua carreira profissional muito antes de Cybertron entrar em sua vida.

Ele trabalhou em rádio e televisão canadenses e posteriormente apareceu em programas norte-americanos, incluindo The Sonny & Cher Comedy Hour.

Durante as décadas de 1970 e início dos anos 1980, tornou-se cada vez mais requisitado para comerciais, trailers e produções animadas.

Então chegou 1984.

A audição para um novo desenho baseado em robôs que se transformavam em veículos provavelmente parecia apenas mais um trabalho naquele momento.

Acabou definindo uma carreira.

Reconhecimento depois de décadas diante do microfone

Peter Cullen recebeu uma indicação ao Daytime Emmy em 2011 por seu trabalho em animação.

Em 2023 veio uma das maiores homenagens de sua carreira: o ator recebeu o Lifetime Achievement Award no Children’s & Family Emmy Awards, reconhecendo uma trajetória de aproximadamente seis décadas no entretenimento.

Era um reconhecimento especialmente apropriado para alguém cuja carreira foi construída, em grande parte, sem que seu rosto aparecesse na tela.

Mesmo assim, sua voz tornou-se mais reconhecível do que a imagem de muitos astros de Hollywood.

Uma voz que atravessou gerações

Há atores que interpretam personagens famosos.

E existem casos muito mais raros em que ator e personagem tornam-se praticamente inseparáveis.

Peter Cullen pertence a esse segundo grupo.

Para quem assistiu Transformers durante os anos 1980, aquela era a voz de Optimus Prime. Para uma nova geração que conheceu os Autobots através dos filmes iniciados em 2007, continuava sendo a mesma voz.

Quase quarenta anos separavam aquelas produções, mas bastavam algumas palavras para que Optimus estivesse novamente ali.

Isso explica também a relação incomum que Cullen desenvolveu com os fãs. Em convenções e encontros públicos, era comum encontrar adultos que cresceram ouvindo Optimus Prime contando ao ator o impacto que aquelas mensagens sobre coragem, responsabilidade e liderança tiveram durante suas infâncias.

Peter Cullen deixa quatro filhos: Angus, Claire, Pilar e Clay.

Ele também deixa algo muito mais difícil de medir: uma voz que atravessou televisão, cinema, videogames e várias gerações de fãs.

Para quem cresceu acompanhando Transformers, talvez seja difícil imaginar Optimus Prime sem Peter Cullen.

Mas existe algo apropriado no fato de que a filosofia usada por ele para construir o personagem permaneça como mensagem final de sua própria família.

Seja forte o suficiente para ser gentil.

E, para os fãs dos Autobots, existe apenas uma maneira realmente adequada de encerrar.

Till all are one.