GeekZilla
InstagramSeries/Cinema

Tron: Ares, trilha sonora e a difícil missão de superar o legado sonoro de Daft Punk

Quando Tron: Legacy chegou aos cinemas em 2010, o filme dividiu opiniões quanto à narrativa, mas algo era unânime: a trilha sonora de Daft Punk se tornou um marco cultural.

O duo francês conseguiu a façanha de unir orquestrações majestosas com batidas eletrônicas futuristas, criando um som que não apenas servia às cenas, mas definia a identidade do longa. Faixas como “Derezzed”, “The Grid” e “End of Line” rapidamente ultrapassaram os limites do cinema, invadindo festas, comerciais, transmissões esportivas e videogames.

A trilha virou um fenômeno independente, lembrada até hoje como uma das colaborações mais icônicas entre música e cinema. Esse impacto estabeleceu uma barra altíssima para qualquer continuação, deixando claro que a música seria central para o universo de Tron.

A aposta em Nine Inch Nails para Tron: Ares

Com Tron: Ares, a Disney decidiu arriscar ao trazer Trent Reznor e Atticus Ross, célebres por seus trabalhos sombrios e atmosféricos em filmes como The Social Network e Gone Girl. A dupla vencedora do Oscar tem uma assinatura inconfundível, baseada em sintetizadores densos, texturas industriais e camadas de tensão quase sufocantes.

O resultado é um álbum de 24 faixas que, isoladamente, funciona como um registro sólido do estilo de Reznor e Ross. Entretanto, quando colocado lado a lado com a herança deixada por Daft Punk, fica claro que a proposta não alcança a mesma força cultural nem o mesmo encaixe natural com o universo vibrante de Tron.

Enquanto Legacy parecia feito sob medida para o Grid, Ares soa mais como uma extensão da discografia do Nine Inch Nails do que como uma trilha pensada para se tornar atemporal.

Diferenças fundamentais entre as duas trilhas

A comparação entre os dois trabalhos escancara diferenças fundamentais. Daft Punk entrou no projeto de Legacy com a missão de se reinventar. Eles não apenas transplantaram sua identidade para o filme, mas moldaram-na de acordo com a estética digital da narrativa, criando algo novo e inesquecível.

Já Reznor e Ross, em Ares, parecem manter a mesma fórmula que aplicaram em outros filmes: uma sonoridade escura, intimista e pesada. Essa abordagem pode funcionar em thrillers psicológicos ou dramas minimalistas, mas Tron sempre foi sobre grandiosidade visual e musical.

O que antes era uma explosão de energia futurista agora se torna um mergulho denso e atmosférico que não traduz o espírito colorido e expansivo da franquia. Essa desconexão faz com que a trilha de Ares seja tecnicamente competente, mas emocionalmente distante.

A questão do alcance cultural

Um dos grandes diferenciais de Legacy foi o alcance que a trilha sonora conquistou fora das telas. Músicas como “Derezzed” se tornaram hinos eletrônicos, tocando em pistas de dança e festivais. O álbum inteiro ganhou status cult, sendo revisitado até hoje e influenciando compositores de Hollywood e artistas eletrônicos.

Já a trilha de Ares, embora bem produzida, não dá sinais de que terá a mesma penetração na cultura popular. É uma obra que agradará fãs do Nine Inch Nails e entusiastas de música industrial, mas dificilmente será lembrada pelo público médio ou remixada por DJs mundo afora. A ausência desse poder de difusão cultural pode ser o maior obstáculo para que a nova trilha repita o feito do trabalho de Daft Punk.

Expectativa versus realidade

As primeiras entrevistas do diretor Joachim Rønning indicavam entusiasmo, com comentários sobre como ouvia a trilha durante o processo criativo e sentia uma energia única. No entanto, a recepção inicial sugere que essa energia não se traduz com a mesma intensidade para o público.

O que deveria ser uma ponte entre a estética visual e a identidade musical da franquia acaba soando como um produto paralelo, bem feito, mas sem a chama necessária para incendiar o imaginário coletivo.

Ao contrário do que aconteceu em 2010, em que a trilha elevou um filme de narrativa irregular ao status cult, Ares não mostra, ao menos por enquanto, sinais de repetir esse feito. Há sempre a chance de que a sinergia com as imagens melhore a percepção, mas a trilha isolada carece da memorabilidade imediata que fez de Legacy um clássico sonoro.

O legado continua com Daft Punk

Ao final, a conclusão é inevitável: Daft Punk ainda reina absoluto como a dupla que conseguiu traduzir a essência de Tron em música. O trabalho de Reznor e Ross, apesar de respeitável e tecnicamente impecável, não alcança o mesmo patamar de relevância cultural.

É uma trilha que cumpre função narrativa, mas não marca época. A estreia de Tron: Ares, marcada para outubro, ainda pode mudar percepções, mas a comparação é inevitável: em termos de impacto e sinergia com o filme, Tron: Legacy continua sendo o ápice sonoro da franquia.