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The Magicians, série com 91% no Rotten Tomatoes é perfeita para fãs de Harry Potter

Todo mundo conhece a história do garoto que vivia debaixo da escada e descobriu que era um bruxo. A saga de Harry Potter marcou uma geração com sua jornada de amadurecimento num mundo onde feitiços e varinhas eram quase tão comuns quanto livros didáticos. Mas e se esse mundo mágico crescesse junto com a gente? E se, ao invés de uma carta de Hogwarts, você recebesse um convite para uma universidade secreta, onde a magia é real, mas também perigosa, imoral e, às vezes, mortal?

É exatamente esse o terreno que The Magicians pisa com precisão cirúrgica. Baseada na trilogia de Lev Grossman e adaptada pela SyFy em 2015, a série parte da premissa “E se Harry Potter fosse escrito para adultos?” — mas vai muito além do tom. Ela desconstrói a fantasia infantil e apresenta um mundo onde o trauma, a culpa e o luto dividem espaço com criaturas encantadas e portais dimensionais.

O protagonista, Quentin Coldwater, é um estudante com histórico de depressão que nunca se encaixou no mundo real. Em vez de receber uma explicação mágica e reconfortante sobre sua origem, ele descobre que seus sentimentos de deslocamento não eram apenas um sintoma clínico: ele realmente nasceu diferente. A partir daí, Quentin entra na Brakebills, uma universidade mágica que, apesar de lembrar Hogwarts à primeira vista, esconde segredos muito mais sombrios e menos acolhedores.

Mas se Quentin é uma versão mais quebrada e introspectiva de Harry, Alice Quinn é o espelho distorcido de Hermione. Filha de poderosos magos, mas emocionalmente negligenciada, Alice não está na escola para fazer amigos ou aprender poções encantadoras — ela quer respostas. Seu irmão morreu misteriosamente em Brakebills, e ela está disposta a explorar até a necromancia para entender o que aconteceu. A magia, aqui, não é uma celebração da descoberta, mas uma arma de sobrevivência, um fardo que consome quem se aproxima demais da verdade.

Além disso, The Magicians se inspira em clássicos da fantasia como As Crônicas de Nárnia, usando a fictícia saga infantil “Fillory and Further” como metalinguagem para questionar o escapismo idealizado desses mundos. Quentin cresceu lendo sobre Fillory e sonhando em um dia escapar para aquele universo mágico — e acaba descobrindo que o lugar é real. Mas a Fillory verdadeira está corrompida, marcada por abusos e violência, uma terra onde os heróis da literatura viraram monstros.

O vilão da primeira temporada, conhecido como The Beast, é na verdade Martin Chatwin, um dos antigos exploradores de Fillory. Traumatizado por abusos sofridos nas mãos do próprio autor dos livros que narravam suas aventuras, Martin usou a magia para se fundir ao reino e escapar da dor — mas o preço foi alto: ele se tornou algo inumano. Ao contrário de Voldemort, cuja maldade muitas vezes parece desconectada de um passado emocional, The Beast representa uma perversão direta do sofrimento humano transformado em poder.

O grupo de protagonistas, com destaque para Penny, Eliot e Margo, reforça essa abordagem mais adulta. Eles são sarcásticos, disfuncionais e frequentemente falhos. Mas é justamente isso que os torna tão reais. A amizade em The Magicians não surge da pureza dos personagens, mas da identificação entre almas quebradas tentando encontrar sentido no caos.

Ao longo das temporadas, a série mergulha fundo nas consequências da magia: perda, vício, luto, identidade. Quentin conquista poderes, sim — mas também perde pessoas, se desilude com seus ídolos e entende que às vezes o preço da verdade é a destruição da fantasia.

No fundo, The Magicians é uma resposta madura e brutal à pergunta: “E se o mundo mágico não fosse seguro?” Enquanto Harry Potter apresenta uma trajetória heroica embalada por escolhas difíceis mas esperançosa até o fim, Quentin vive uma realidade onde o crescimento vem à força, e onde o próprio conceito de “salvar o mundo” deixa cicatrizes permanentes.

Se você cresceu com Hogwarts mas agora enxerga o mundo com olhos mais céticos, The Magicians pode ser a série que vai preencher aquele vazio deixado pela infância mágica — só que desta vez, com sangue, terapia e algumas decisões moralmente questionáveis pelo caminho.